Nascimento

Patrícia Saar Paz e Vinicius Cavalcanti de Abreu

Como este é o primeiro texto que publicamos no Multiverso Terapêutico chegamos à conclusão que nada mais adequado do que escrevê-lo a quatro mãos. A partir deste momento tornamos pública uma parceria profissional e de amizade que se iniciou há anos. Este projeto é, portanto, a concretização de um sonho em comum, um grande desafio e a celebração das trocas que tanto enriquecem nossas vidas.

Por ser o texto inicial, uma espécie de “nascimento” deste espaço, resolvemos também que seria importante refletirmos sobre o processo envolvido em nossa caminhada e que não é tão diferente de tantas outras construções e projetos empreendidos na trajetória de vida de cada um de vocês leitores e leitoras. Ainda que esse espaço seja “inaugurado” para vocês somente hoje, ele já existe, para nós, há algum tempo. Então, lançamos a seguinte pergunta para nosso pontapé inicial:

Em que momento realmente começa um projeto?

Pensamos que, para a maioria dos empreendimentos, o ciclo começa quando emerge um sonho, mesmo sem contornos claros e com cores difusas. Tudo aquilo que emerge vem de algum lugar, brota de um “background”, que está intimamente conectado a nossa história de vida (passível inclusive da influência da história passada de nossas gerações familiares). Nada surge ao acaso, nem mesmo um projeto. Somos seres históricos e também carregamos nossa história na estruturação biológica, psíquica e emocional.

A partir do momento que emerge um sonho, ele começa a ser gestado, carregado de desejo. Tal qual um bebê que se desenvolve no ventre materno e recebe da mãe suas expectativas e projeções, sendo assim preenchido de sentido. Este é um momento muito importante, pois é aí que reside o embrião de uma nova história.

O começo coincide, portanto, com a mobilização interna para colocar em ação tudo o que for necessário em busca de alcançar a realização.

O que vem a seguir, nesse processo rumo a realização, é a criação e elaboração de um corpo que dê forma ao sonho, que o estruture e permita sua saída do mundo das ideias para emergir no mundo “real”. É um momento em que uma negociação entre o ideal e o senso de realidade se impõe. Iniciamos a procura por possibilidades para materialização do sonho e ele começa a tomar uma forma possível. O antes embrião, já agora feto adquire feições e contornos de acordo com sua possibilidade estrutural.

Ao longo de todo este processo é necessário nutrir e buscar bases sólidas para que a gestação se sustente e chegue ao ponto de, enfim, ser possível dar a luz. O nascimento é o momento em que este ciclo pode enfim ser considerado realizado.

Entretanto, interrupções espontâneas ou induzidas, também podem fazer parte ou serão necessárias na trajetória de alguns projetos. Nem sempre a existência de vontade e desejo será suficiente para que o real permita que a gestação de um empreendimento siga seu fluxo.

E o que acontece quando um ciclo é encerrado, seja por sua concretização ou interrupção? Outro deve começar, passando pelos mesmos passos, e seguindo continuamente. Começo e fim, nascimento e morte fazem parte de um mesmo espectro e se misturam ao longo de nossa trajetória enquanto seres humanos.

Nossa gestação do Multiverso Terapêutico começou com o surgimento da ideia e concordamos que seria valioso vê-la realizada. A partir daí iniciou-se um longo ciclo, mais longo inclusive do que prevíamos inicialmente. Contou com a ajuda e o carinho de amigos e colaboradores e, graças a eles e ao nosso empenho, este ciclo agora encontra sua realização.

O novo ciclo que começamos a partir desse ponto é de constante pesquisa, compartilhamento de ideias e trabalho e inclui todos vocês, que nos leem, em quem desejamos suscitar reflexões e com quem esperamos realizar trocas para que este espaço seja realmente significativo, como idealizamos.

Que venham novos ciclos para o Multiverso Terapêutico! Podem ter certeza que outros sonhos já emergiram…

 

Imagem: Pintura óleo sobre tela “Conversando com a Rosa” de Cleusa Caldas.

 

5 Comentários

Arquivado em Psicoterapia

5 Respostas para “Nascimento

  1. Iandara - Dara

    Tenho muito a elogiar, mas principalmente a agradecer! Certamente o tempo, a dedicação e o amor empenhados nesse projeto que acaba de nascer, tem muito a contribuir com as minhas inquietações, angústias e considerações enquanto ser humana. Vocês são demais!!! E como diz a Mimi: Grata, queridos!

    Curtido por 1 pessoa

    • Que este nascimento, seja não somente de um projeto, mas, principalmente a incipiência do sonho que se realiza, quando dois iluminados, então, se unem e externam a energia que tanto luta para sair e brilhar; sonho este, que com certeza, será uma próspera e frutuosa jornada.

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  2. Gleidson Tadeu

    Que alegria, ver esse projeto dentro do meu lar, uma oportunidade de propagar o interesse de visualizar ou perceber os desafios da vida.

    Faço menção a frase lida “E o que acontece quando um ciclo é encerrado, seja por sua concretização ou interrupção?”

    Outro se inicia, é assim que me sinto a cada consulta, a cada conversa e a cada desafio lançado na sessão terapêutica.. (kkkk)

    Agradeço demais pela disponibilidade, e que mais textos gostosos como este possa ser fomentado aqui…

    Abraços.

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  3. Ícaro

    Com a leitura me surgiram alguns questionamentos sobre a concepção de projetos, suas motivações e possíveis interrupções. Os projetos de vida e conceitos de felicidade, amor, ódio, são percebidos de forma única por cada indivíduo em razão das suas peculiaridades de interação com o meio? A experiência de interação com o meio externo impõe conceitos e objetivos pré-definidos. Mas como saber se o objetivo, o plano, o projeto, os conceitos são adequados ao indivíduo? Fechar os olhos não faz os fenômenos desaparecem, mas altera tão somente a minha percepção da realidade. Portanto, a “gestação” ideal de projetos até sua efetiva materializarão perpassa por influências das minhas limitações sensoriais? Ou sofrem influência de padrões externos? Como o indivíduo pode conceber que seu projeto de felicidade não é uma interpretação equivocada dos fenômenos fruto da sua interação com o meio externo?

    Por fim, me questiono sobre sentimentos. Penso que os sentimentos são tantos que impossível numera-los. São sentidos ao mesmo tempo em diferentes intensidades. Mas como conhecer os sentimentos? Como identificá-los? São eles os responsáveis por tomadas de decisões, pela inércia, pela criação e pela destruição?Alguém na face da terra conseguira descrever, com precisão, aquilo que sente? E o outro seria capaz de entendê-lo?

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    • Ícaro, agradecemos sua mensagem! As perguntas que lançou são bastante complexas já que deflagram a intercessão entre vários assuntos como projeto, subjetividade, meio social, sentimentos, entre outros. Não conseguiríamos em tão curto espaço responder a tais questionamentos sem incorrermos na superficialidade e simplificação. Pretendemos abarcar estes assuntos em textos futuros. Propomos portanto que acompanhe nossas reflexões e continuemos a conversar a respeito. Atenciosamente, equipe Multiverso Terapêutico.

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