Afinal, o que a terapia não é?

Patrícia Saar Paz e Vinicius Cavalcanti de Abreu

Sky and Water I

Muito já foi dito sobre o que é a psicoterapia, o que necessariamente não implica em maior conhecimento sobre seu uso e utilidade. Algumas das ideias popularmente difundidas sobre o processo terapêutico não condizem com sua prática e hoje decidimos falar um pouco sobre isso. Optamos por caminhar na contramão, partindo daquilo que ela não é a fim de construirmos uma discussão que seja mais interessante e esclarecedora.

Salientando que todo este texto é pautado em nossa experiência clínica e de trabalho já podemos destacar um primeiro ponto: terapia não é sempre igual, ela varia em função do psicoterapeuta, de sua formação profissional e do perfil e das necessidades do cliente Nem todo profissional trabalha da mesma maneira e se utiliza dos mesmos recursos e teorias em sua prática e um cliente pode sentir mais afinidade com um determinado “estilo” que com outros existentes. Não existe uma só forma de fazer psicoterapia.

Outra ideia comum e equivocada é a de que o trabalho terapêutico é dedicado às “pessoas doidas” ou “fracas”. Esta é uma visão preconceituosa que infelizmente ainda se faz presente e desqualifica aqueles que procuram por ajuda. Saber pedir e estar aberto a receber são aspectos de humanização, muitas vezes prejudicados por orgulho e vaidade que acabam por impedir o reconhecimento das próprias necessidades. Perceber-se atravessando dificuldades que estão além da sua possibilidade de resolução e pedir ajuda para seu enfrentamento é um ato de coragem.

A terapia também não é uma simples conversa na qual você fala sobre seus problemas e recebe conselhos sobre o que fazer ou tampouco um processo que de maneira mágica e imediata proporciona a concretização de mudanças. Da forma como a concebemos, a terapia deve ser encarada como um processo empreendido a partir de uma parceria entre terapeuta e cliente(s), visando a um objetivo específico. Falar em parceria ressalta a responsabilidade compartilhada por todos os envolvidos. Psicólogos não têm superpoderes muito menos são super-heróis que salvam os indefesos – leia-se pessoas incapazes de agir em benefício próprio. Não basta ao cliente comparecer aos encontros e aguardar que as mudanças aconteçam sem que se esforce para tal. O projeto terapêutico é construído em conjunto e não caminha sem a implicação ativa do cliente e da mobilização de seus recursos para a saúde.

O processo terapêutico também não é ad infinitum. Como tudo na vida, a terapia tem começo e fim, sendo que seu encerramento pode ser determinado por iniciativa do próprio cliente ou do psicólogo. A ideia de que a terapia dura muito tempo e acontece “a perder de vista” é bastante comum e não necessariamente correta.

Independente da motivação inicial do cliente, o processo terapêutico empreendido terá sempre como foco o aumento de sua autonomia, portanto, não é uma muleta ou estimulante à dependência.

Tentamos cobrir alguns dos aspectos que geram dúvidas e são fontes de equivoco com maior frequência, mas sabemos que este tema pode despertar curiosidade e muitos outros questionamentos. Por isso deixamos aqui o convite para que participem da continuidade desse texto, enviando suas dúvidas ou contribuindo com outros comentários.

Imagem: “Sky and Water I” de M. C. Escher.

1 comentário

Arquivado em Psicoterapia

Uma resposta para “Afinal, o que a terapia não é?

  1. Ícaro

    Primeiramente agradeço a atenção e preocupação com meus questionamentos no texto anterior. Estarei sempre ávido por escritos que venham tangenciar as questões que inquietam minha mente. Sobre este texto, acredito que ficou bastante claro que algumas das minhas dúvidas/reflexões podem ser aclaradas em processo terapêutico. Como o texto afirma tudo aquilo que o processo terapêutico não é, penso, portanto, que ele é uma forma de dar nitidez aos conceitos e reflexões opacas na visão subjetiva do indivíduo, ou um caminho para encontrar respostas que, por meios próprios, o indivíduo não conseguiria alcançar. Ansioso por novos temas para que possamos debater. Aplaudo a iniciativa do projeto, que me parece único na vastidão do mundo virtual, pois abre espaço para debates e temas que todo indivíduo já se questionou em algum momento da vida.

    Curtido por 1 pessoa

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