Vamos falar sobre HIV?

Patrícia Saar Paz

in-bed-the-kiss-1892.jpg!Blog

Talvez alguns de vocês já saibam que eu e meu parceiro Vinícius Cavalcanti de Abreu nos dedicamos ao atendimento de pessoas vivendo com HIV já há alguns anos. A temática do HIV nos motiva muito e julgamos de grande importância utilizar o espaço do Multiverso Terapêutico para discuti-la e para compartilhar informações com vocês.

Nesse primeiro texto pretendo apresentar informações gerais sobre o assunto, partindo de questionamentos feitos por muitas das pessoas com quem conversei sobre HIV e aids ao longo de minha trajetória profissional.

Para começar, não usamos o termo aidético. Essa nomenclatura, além de ser considerada altamente ofensiva e carregar consigo uma série de estigmas, leva a crer que todas as pessoas contaminadas pelo vírus tenham também a síndrome, o que é um equívoco. É possível e bastante comum que portadores do vírus passem anos sem apresentarem doenças oportunistas desde que sigam tratamento adequado. Expressões como pessoa vivendo com HIV ou portador do vírus HIV são preferíveis e mais corretas do ponto de vista clínico.

Não é necessário mais do que um contato sexual sem uso de preservativo para que a transmissão do vírus possa acontecer. O mesmo vale para uso e compartilhamento de seringas e outros objetos perfurocortantes. Muitas pessoas se iludem com o pensamento só uma vez, não tem problema. Pode acontecer sim, inclusive através de sexo oral. É importante lembrar que o vírus está presente e pode ser transmitido por meio do sangue, leite materno e fluidos genitais (sêmen, líquido pré-ejaculatório e secreções vaginais).

Apenas exames específicos são capazes de detectar a contaminação pelo HIV, hemogramas e outros exames de laboratório são inúteis a este fim. O teste mais comum para investigação do HIV é chamado Elisa e detecta a presença dos anticorpos anti-HIV no sangue, por isso é necessário aguardar o período de janela imunológica para que os resultados sejam confiáveis. Janela imunológica é o intervalo de tempo entre a infecção pelo vírus e a produção de anticorpos. Atualmente, o Ministério da Saúde tem orientado que se aguarde entre 30 e 60 dias para realização dos exames, que podem ser feitos gratuitamente nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA). No entanto, alguns cuidados devem ser observados: 30 dias é o período mínimo de tempo necessário para que os anticorpos anti-HIV sejam produzidos e identificados pelo exame. Em alguns casos, são necessários até 120 dias para que o resultado do exame seja considerado confiável – a esse respeito, é fundamental compreender que a contagem de tempo refere-se a um evento específico em que tenha existido risco de contaminação. Ou seja, se faço sexo desprotegido no dia 01 e deixo de usar o preservativo novamente no dia 88, um exame realizado no dia 90 nada poderá informar sobre minha sorologia, pois não contempla o segundo episódio.

Uma vez que a infecção pelo vírus é confirmada, torna-se necessário iniciar acompanhamento médico com infectologista, que solicitará exames complementares para avaliar a evolução do vírus no corpo. Os exames de carga viral e de contagem de CD4 indicam, respectivamente, o número de cópias do vírus por milímetro cúbico no sangue e o número de linfócitos CD4 – leucócitos utilizados pelo HIV para sua multiplicação e destruídos neste processo – e auxiliam na decisão de iniciar o uso da mediação. Uma vez iniciada, a medicação deverá ser tomada diariamente, sem interrupção. Existem algumas dezenas de remédios usados para o tratamento da aids no Brasil e eles são combinados em grupos de 3 ou 4, compondo o que conhecemos como “coquetel”. Em algumas situações com risco de exposição ao vírus, como casos de violência sexual, por exemplo, é possível realizar a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), na qual os remédios do coquetel são utilizados pelo período de aproximadamente um mês. A Profilaxia também é utilizada com sucesso em recém-nascidos cujas mães sejam soropositivas. Nesses casos ela deve ser aliada a cuidados específicos no parto e à abdicação da amamentação. Embora muitas pessoas não saibam, é possível e comum que mulheres portadoras do vírus HIV deem à luz filhos soronegativos.

Para encerrar esse texto, gostaria de fazer um alerta. Ele ou ela não tem cara de quem tem HIV é um pensamento comum, equivocado e muito grave. O vírus é extremamente democrático, não distingue camada social, nível de instrução, orientação sexual ou idade. Com isso quero dizer que qualquer pessoa pode ter ou se contaminar pelo vírus HIV. Desta maneira, a única forma segura de saber a sorologia de alguém é através do exame.

O portador do HIV enfrenta uma série de dificuldades, isso é fato. Mas a vida do soropositivo é fundamentalmente igual a de todas as demais pessoas, com suas possibilidades de felicidade, crescimento e bem estar.

Finalmente, peço a vocês, leitores e leitoras, que contribuam com a construção das conversações sobre esse tema enviando-nos suas dúvidas e comentários!

Imagem: “In bed: the kiss” de Henri de Toulouse-Lautrec.

Deixe um comentário

Arquivado em HIV / Aids

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s