O HIV e a sutileza do preconceito

Vinicius Cavalcanti de Abreu

espelhoarte16

Gostaria de abordar no Multiverso Terapêutico um assunto atual e bastante pertinente, que necessita não apenas de conscientização, mas de ser problematizado e inserido em nossas conversas para tomada de consciência. O preconceito e a estigmatização simbólica do portador do HIV/aids. Refiro-me aqui àquelas práticas, falas, palavras e pensamentos que na sutileza ou mascarados de informações e conhecimento técnico perpetuam a exclusão.

Mais de trinta anos de epidemia se passaram e não só nos defrontamos com a dificuldade de controle dos índices de contaminação pelo vírus HIV, como observamos todo estigma que ainda acompanha não só a conversa sobre esta temática, mas também quem vive e convive com o vírus da imunodeficiência humana.

Graças ao trabalho de ongs, militantes e da reivindicação de direitos e políticas públicas adequadas para a população soropositiva este cenário avançou. Mas por que nos contentarmos se maiores e melhores avanços podem e precisam ser conquistados? Avançar também significa nos comprometermos com a mudança de mentalidade necessária à nossa evolução enquanto seres humanos que conseguem incluir e conviver (viver com) respeitosamente.

Como alguns de vocês sabem, trabalhei diretamente com a temática do HIV/aids por quase oito anos em uma instituição chamada Grupo Vhiver, pela qual tenho imensa gratidão. Gratidão pelas pessoas que conheci e convivi e gratidão pelo aprendizado. Costumo dizer que multiplicar este aprendizado e minhas reflexões pessoais no meu microssistema (familiar, profissional, afetivo e social) se tornou uma responsabilidade. Este texto, portanto, é uma colcha de retalhos que construo a partir de minhas vivências e a partir deste meu compromisso em contribuir para esta mudança.

Muitas vezes ouço críticas à ideia do politicamente correto, como se as pessoas não mais tivessem o direito de se expressar genuinamente e precisassem escolher as melhores expressões e palavras para usar sem ofender ou discriminar. Alguns apaixonadamente se revoltam e encaram esta postura como censura ou excesso de purismo e sensibilidade. Peço neste momento ponderação.

Voltemos nosso olhar para uma palavra em especial. No início da década de 80 notícias sobre a então nova epidemia começaram a ser veiculadas. Num misto de estranhamento, medo e alarde surgiram vozes, principalmente médicas e religiosas, divulgando seus discursos (em grande medida também carregados de medo e calcados na busca por culpados). Neste contexto emergiu a palavra aidético. Nada de errado com esta palavra, apenas um termo, como qualquer outro que pode ser cunhado. Entretanto, não podemos negar que palavras não existem por si só, elas estão inseridas em uma comunidade linguística e são, portanto, individual e socialmente preenchidas de sentido e significado adquirindo um peso que é inclusive histórico. Palavras podem ser recheadas de preconceito e se tornarem ofensas! Lembro-me na escola, era criança nesta época, de escutar colegas chamando-se por esta palavra com o intuito de ofender e se atacar.

Portanto, pessoas que se contaminaram com o vírus HIV não são aidéticas, são soropositivas, HIV positivas ou pessoas vivendo com HIV/aids. Esta palavra vem carregada de ideias errôneas e repletas de pré-conceitos, que disseminadas àquela época, ainda não foram completamente superadas. Dentre elas destaco a relação direta realizada entre a aids e a homossexualidade. O que existe por trás deste pensamento é a tentativa de patologizar e condenar a prática do amor entre iguais. Vale lembrar que no início da epidemia o HIV chegou a receber o nome de “câncer gay”.

Outra destas ideias equivocadas é encarar a pessoa soropositiva como sexualmente promíscua. Alguém que fez por merecer a contaminação através de seu comportamento ou que apresenta falha de caráter. Este pensamento muitas vezes encontra-se como pano de fundo para a dificuldade em conseguir contribuições e ajuda (de pessoa física e jurídica) aos projetos que visam suporte a quem vive e convive com HIV/aids e direciona um olhar pouco humano para quem se contaminou. Já ouvi diversas vezes a seguinte frase: “Ah! Mas fulana procurou isto com as próprias mãos!”. Ou diante de uma criança soropositiva: “Coitado, está pagando pelos pecados dos pais!”. Proponho inclusive que procurem entender qual o real significado da palavra promiscuidade e verão que este difere do sentido ao qual ela acabou sendo associada em nossa fala cotidiana.

Vale lembrar que não se utiliza mais os termos grupo de risco ou comportamento de risco. Estas expressões denotam algum tipo de prática que leva à contaminação e automaticamente à culpabilização de quem se contaminou. Falamos então em vulnerabilidade, um conceito mais global e que inclui a todos nós, independente de sexo, orientação sexual, idade, raça, nacionalidade e credo. Vulneráveis somos todos em alguma medida, não existindo grau de vulnerabilidade zero. E os fatores que contribuirão para o aumento desta vulnerabilidade não são apenas relacionados a práticas individuais.

O ultimo ponto que gostaria de explicitar diz respeito às ideias errôneas em relação à forma como deve ser o contato com uma pessoa soropositiva. Existe uma ligação etimológica entre a palavra contato e contágio. O medo relaciona-se ao contato que pode me contaminar, me contagiar. Excluo ou me afasto para não correr o risco de “pegar aquilo”. Então justifica separar copo, talher, passar água sanitária no banheiro quando uma pessoa soropositiva o utilizar, não permitir que ela pegue meu filho recém-nascido no colo, não mais abraçar, beijar ou ter relação sexual e até mesmo assentar no mesmo lugar de ônibus no qual alguém com HIV se sentou. Suponho que estamos cansados de saber que estas não são formas de transmissão. Mas aí vem a frase: “ah! Mas eu não quero correr o risco…”.

Contato não contamina ao contrário, transforma e contagia reciprocamente de alegria e bem estar. Nunca saímos os mesmos de uma experiência genuína de encontro com o outro.

Vamos lembrar que nem sempre o preconceito é intencional e nem sempre quem adquire uma postura preconceituosa ou discriminatória tem consciência que o está fazendo, mas é nossa responsabilidade mantermos uma postura crítica e observarmos nossas falas, práticas e principalmente os sentimentos que nutrimos intimamente.

Ainda teremos várias oportunidades para abordar assuntos relacionados ao HIV/aids. Podem ter certeza que ainda temos muito o que conversar.

Imagem: Fotografia de Shirin Abedinirad, instalação Narcissus.

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