A família está mesmo em crise?

Patrícia Saar Paz

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A discussão sobre a “crise da família” tem sido cada vez mais frequente e acalorada, recheada de preocupações com seu inevitável fim no futuro próximo caso não se inicie a luta por sua defesa desde já. O tom catastrófico desse discurso me faz pensar inicialmente em duas questões: qual significado está sendo atribuído à palavra “crise”? e o que está sendo considerado como “família”?.

Escapando da tarefa de analisar tais discursos e propor resposta às duas últimas perguntas, me disponho a discutir os conceitos de “crise” e “família” e responder, sob minha perspectiva, à questão que intitula este texto – e já adianto, a meu ver, a resposta é afirmativa.

Buscando a origem etimológica da palavra família, chegaremos ao latim famulus que significa “servo” ou “escravo” e nos remete a tempos primitivos em que a família designava o grupo de pessoas que vivia na mesma propriedade e pertencia a um mesmo senhor, lógica esta que estrutura o patriarcado. Claro que esta configuração já não faz parte de nossa realidade e que ao falarmos de “família”, provavelmente ninguém pensará em servos. No entanto, o caráter possessivo e autoritário evidenciado a partir desta definição pode ser observado ao voltarmos pouco tempo na história, em famílias nas quais a esposa devia obediência total ao seu marido e este detinha poder de decisão também sobre a vida dos filhos. Sejamos honestos: é preciso mesmo voltar no tempo para encontrar estas famílias ou elas ainda existem entre nós?

Julgo importante pensarmos também sobre o conceito de família na atualidade.  No dicionário Houaiss, família é 1 grupo de pessoas vivendo sob  mesmo teto (esp[1]. o pai, a mãe e os filhos) 2 grupo de pessoas que têm uma ancestralidade comum ou que provêm de um mesmo tronco 3 pessoas ligadas entre si pelo casamento e pela filiação ou, excepcionalmente, pela adoção.

Na Constituição Brasileira a família, base da sociedade, deve ser protegida de forma especial pelo Estado e pode ser constituída através do casamento ou união estável e dissolvida através do divórcio; reconhecida no grupo formado por qualquer um dos pais e seus descendentes; imputada de deveres e direitos igualmente exercidos por homens e mulheres; composta por crianças e adolescentes com direitos assegurados, entre os quais, à dignidade, ao respeito e à liberdade.

Inúmeras outras definições de família poderiam ser mencionadas: da biologia, sociologia, de diferentes religiões. Inclusive a definição de cada um de vocês, leitores e leitoras, e àquelas das pessoas da sua família – já se perguntou se elas são iguais e contemplam os mesmos parentes? -, ou a minha que é grupo de pessoas, aparentadas ou não, unidas entre si por laços de afeto, motivadas a conviverem intimamente e fornecerem apoio e proteção umas às outras.

Se há tantas definições possíveis e se nenhuma delas pode ser considerada definitiva, talvez seja mais acertado falar em famílias e não mais trata-las no singular, como se houvesse um modelo único ou ideal a ser perseguido.

Este é o ponto no qual devemos incluir o conceito de crise em nossa discussão.

Originada do grego krisis que é “ação de distinção”, “decisão” e do verbo krino “separar, decidir, julgar”, a palavra crise em nada se relaciona à catástrofe. De forma muito construtiva, crise tem a ver com um ponto de mudança no qual a bagagem de conhecimento acumulado exige uma redefinição de trajetória. Portanto, quando falamos que a família está em crise, é mais coerente pensar que ela atravessa um momento de mudança em sua trajetória evolutiva do que temer que ela possa ser dissolvida. Esta mudança da qual tratamos, fruto do momento de crise, é exatamente o que nos permite, ou mesmo exige, falarmos em famílias, reconhecendo a legitimidade de sua pluralidade de configurações e diversidade de vinculações.

Aqueles que advogam pela proteção da família e temem seu fim certamente referem-se a um modelo tradicional de configuração familiar e, com seu discurso, desconsideram a validade dos demais arranjos. Pessoalmente, acredito que o único risco que a família tradicional corre em virtude da crise apresentada é de perder sua posição de hegemonia.

 [1] Especialmente

Imagem: “A família” de Lasar Segall.

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