Amar

Vinicius Cavalcanti de Abreu

Amor - Fredy holzer

Escrever sobre o ato de amar é algo complexo e que pode ser realizado a partir de diversas óticas e perspectivas. Proponho aqui apenas um pequeno recorte. Gostaria de refletir sobre o que, intimamente, vivenciamos como amar.

Entendo o amar como o ato de colocar o amor em movimento, a expressão do amor em nossas vidas. O amar pode ser direcionado a mim mesmo, ao outro, a uma força superior ou espiritualidade (que receberá nomes diferentes dependendo de minhas crenças) e às ideias e ideologias.

Não existe apenas uma forma de amar e as maneiras de fazê-lo estão intimamente ligadas aos aprendizados e experiências vivenciadas e as influências da cultura. Em nossa sociedade ainda é esperado que as mulheres demonstrem maior facilidade para a expressão das emoções, enquanto que, para os homens, esta expressão pode ser vista como sinal de fraqueza.

Aprendi que amar é um ato integrativo, que acolhe, conecta e liberta, entretanto observo em minha prática clínica e nas conversas do dia a dia que muita dor é justificada em seu nome. Problemas emocionais, traumas e dificuldades relacionais acabam por interferir em meu agir no mundo e, consequentemente, na maneira como manifesto o amor. Estamos adulterando o significado de amar?

Como Terapeuta Familiar Sistêmico, os dois principais pilares que norteiam meu trabalho são a formulação de perguntas que sejam relevantes e o compromisso em ajudar meus clientes a ampliarem sua consciência a respeito de si e seu entorno. Quando ampliamos a consciência nos responsabilizamos de forma autônoma por nossa vida e somos capazes de nomear sentimentos, emoções ou sensações sem a necessidade de máscaras ou autoengano. Disponibilizamo-nos a encarar o real, mesmo que isto seja desconfortável ou doloroso.

O que percebo como minha forma de dar e receber amor talvez possa ser melhor descrito por outras palavras. O amor, infelizmente, pode ser confundido com fusão, anulação, dominação, egocentrismo ou egoísmo, controle, imposição, obsessão e baixa estima.

Proponho, portanto, algumas perguntas para reflexão:

 Como percebo o amar em minha vida? Sinto me amado? Consigo me amar?

Quais as minhas formas de expressar o amor?

A quem tenho como referência de amor em minha história de vida?

Para mim, amar é encontrar-me no outro, mas, perder-me de mim?

Violência e desrespeito à integridade física e emocional justificam-se por amor?

Para amar a mim mesmo o melhor caminho é o “dane-se o mundo quem importa sou eu”?

Por amar as minhas “verdades” posso me ver justificado a condenar e julgar a pluralidade e diversidade do mundo?

Demonstro o amar através de um cuidado excessivo e sufocante, que cobra satisfação e provas?

O que espero e imponho como condições para amar?

O amor me confere o direito de desqualificar ou manipular visando o bem do outro?

Em nome do amor sempre me calo, não contesto ou procuro sempre agradar mesmo me desagradando?

Para ser digno de amor preciso me moldar ao desejo do outro ou mendigar afeto?

Será que as condutas que vivencio ou utilizo em minha vida relacional são realmente expressões do amar?

Haveria outra palavra, mais adequada que amar, para definir meus comportamentos?

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

Citação: Epígrafe do livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago citando “O Livro dos Conselhos”

Imagem: “Amor” de Fredy Holzer

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