Quando um relacionamento dá errado

Patrícia Saar Paz

Vampire Edvard Munch

A fala inspiradora do tema que apresento hoje para discussão no Multiverso Terapêutico já surgiu em atendimentos, conversas com pessoas próximas, cenas de filme e muito provavelmente já foi dita ou ouvida por você em algum momento: meus relacionamentos nunca dão certo. É esse nosso ponto central, mas não iremos direto a ele. Peço que iniciemos por um caminho paralelo que espero, nos servirá como atalho.

Façamos um exercício de imaginação: você está na cozinha de sua casa e prepara um bolo para o lanche da tarde. Pode ser um bolo de massa pronta, que compramos nos supermercados, ou aquela receita especial da sua avó. A receita já é conhecida por você, foi testada em outros momentos, aparentemente não há segredo. Você coloca a massa no forno, marca o tempo para que o bolo asse e aguarda o resultado. Surpreendentemente, seu bolo não cresceu. Você corta um pedaço e percebe que a massa ficou dura, seca e o fundo está um pouco queimado. Experimenta e não resta mais dúvida: o sabor não está bom, dessa vez seu bolo deu errado. Pode ser que o forno estivesse desregulado, algum dos ingredientes não estivesse tão bom ou quem sabe você tenha “errado a mão” em alguma parte do processo. Acontece.

Acredito que não seja difícil concordar que esse bolo deu errado. É esperado que um bolo cresça, fique macio e seja saboroso. São expectativas muito claras, compartilhadas pela maioria das pessoas que gostam de bolo.

Entretanto, no que diz respeito aos relacionamentos afetivos, consensos estão longe de existir e as expectativas diferem não apenas de pessoa para pessoa, mas também ao longo da trajetória de cada um. Partindo dessa ideia, confesso que as falas acerca de relacionamentos que dão errado me causam incômodo e suscitam alguns questionamentos: o que nos autoriza a dizer que um relacionamento deu certo ou deu errado?; existe um formato pré-definido que nos permita saber como um relacionamento deveria ser ou onde deveria chegar?; as expectativas do casal quanto à sua realização afetiva irão sempre coincidir?

Observo que muitas pessoas associam o sucesso e o fracasso das relações afetivas à sua duração o que, em minha perspectiva, consiste em ledo engano. É a ideia do Felizes para sempre que conhecemos ainda pequenos através dos contos infantis, e que cresce conosco criando ilusões e fantasias com alto potencial para frustração. Idealizamos uma união que, uma vez estabelecida, nos tornará plenos até o final de nossos dias, não havendo espaço para imaginar a vida sem que o Príncipe ou a Princesa estejam ao nosso lado. Acredito ser saudável e necessário nos conformarmos com a ideia de que todo relacionamento chegará ao fim. Seja em função de um dos cônjuges já não se sentir realizado na relação, porque houve um ato de deslealdade que não poderá ser superado ou até mesmo pela morte. O término chegará para todas as relações, não importa se de maneira consensual, litigiosa ou abrupta. Se a forma de aferir sucesso estiver ancorada na duração, não importará a qualidade da relação construída.

O que significa, então, dar certo ou dar errado quando tratamos de relacionamentos afetivos? Da minha perspectiva, considero de sucesso todo relacionamento que acrescenta algo de valoroso à vida dos envolvidos, indo da felicidade pelo tempo compartilhado ao aprendizado sobre como não se comportar em futuras relações. Se o relacionamento impulsionou seus membros em sua caminhada e facilitou seu crescimento, por que não considera-lo válido? Naturalmente, dificuldades, frustrações e decepções podem fazer parte – e seguramente farão – de todas as formas de relação humana e mesmo esses elementos têm potencial para ajudar os membros de um casal em seu processo de evolução pessoal.

Incomoda-me a ideia de dizer que um relacionamento deu errado uma vez que também não há conformidade absoluta sobre onde os relacionamentos devem chegar. Todo namoro deve virar casamento? Todas as pessoas tem que querer uma união matrimonial? Devemos ser cautelosos com as especulações que fazemos sobre os sonhos, os alheios ou os nossos. A perspectiva de que todo relacionamento deve “evoluir” para um casamento me faz novamente pensar na influência de nossas histórias de criança, afinal, o Felizes para sempre costuma ser precedido pelo casamento dos afortunados personagens. Não há problema algum com o desejo de casar-se, mas seguramente é equivocado acreditar que todas as pessoas devem compartilhar esse sonho ou que todo relacionamento chegará a esse ponto. Igualmente errônea é a ideia de que uma relação que não seguir por esse caminho será errada ou infeliz.

Finalizo esse convite à reflexão propondo que tentemos dirigir um olhar mais generoso às histórias que vivemos, sejam de amor ou de desilusão. Consideremos que todas inevitavelmente chegarão ao fim e cumprirão alguma função em nossas vidas. Cabe a cada um retirar o melhor possível dessas experiências.

Imagem: “Vampire” de Edvard Munch

3 Comentários

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3 Respostas para “Quando um relacionamento dá errado

  1. Ícaro

    Excelente texto. Adoraria ler a opinião dos autores sobre um tema que ouvi chamado “Efeito Dunning-Kruger-Soullesz” e a autoestima do indivíduo.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Mari Milia Lambertucci

    Gostaria de começar meu comentário felicitando o Multiverso Terapêutico e seus idealizadores pela empreitada de beleza e informação que trazem para nós leitores.
    Sobre o tema acima, ouvi ao longo de minha formação: “somos seres em relação” e sempre que leio sobre esse tema vejo o quanto ainda precisamos flexibilizar, descongelar, descondicionar nossos padrões mentais.
    Inicialmente é interessante questionarmos como agimos no cotidiano: somos seres ligadas ao resultado de nossas ações ou nos importamos com o processo, o alcance delas? Vivemos projetando-nos para o futuro ou sentindo o presente em suas diversas possibilidades? Julgamos as nossas ações em certo ou errado, ou podemos viver sem julgar um pouco e apenas observar os fatos? Acredito que todos esses questionamentos permeiam o tema: “Quando um relacionamento dá errado”.
    A forma capitalista a que estamos condicionados a pensar e agir, essa sim pode ser errada… preocupamos em buscar mais e mais resultados, que muitas vezes não saem como gostaríamos. E consequentemente nos esquecemos de que as coisas acontecem como consequência de nossas ações no presente. Sem falar, como nos julgamos e sofremos com o julgamento dos outros.
    Relacionar é tarefa árdua, mas podemos tentar nos julgar menos e experimentar novas possibilidades… A vida pode nos trazer novas formas de vivenciar as relações e com o passar do tempo podemos sentir diferente… nem tudo deu errado!!! O que ficou foram inúmeros aprendizados!!!
    O bolo solado também tem seu valor e sabor…

    Curtido por 1 pessoa

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