Mudar! Pode ser pra ontem?

Vinicius Cavalcanti de Abreu

La persistencia de la memoria

Quando criança, nos anos iniciais do ensino fundamental, era comum a realização de um experimento muito simples que fazia parte da matéria de ciências e, por conseguinte, do estudo da vida: plantar grãozinhos de feijão em um algodão umedecido dentro de um copinho plástico. Lembro-me que ficava de tal forma entusiasmado que me frustrava com a demora do feijão para brotar. Todos os dias, por várias vezes, ia até o copinho e espiava para ver se alguma diferença já podia ser notada. Em alguns momentos me questionava se tinha feito algo errado. Será que não iria brotar? Estava em um local com pouca luz? Encharquei demais ou de menos o algodão? Será que os grãos não estavam bons? Alguns adultos chegavam até a se aborrecer com minha impaciência. Mas quando o broto aparecia, uma sensação de realização e alegria intensa me inundavam e imediatamente aquietava-se meu coração.

Esta lembrança pessoal atualmente me acompanha como uma metáfora que ajuda a refletir sobre o processo da mudança no processo terapêutico. Percebo que nós, seres humanos no geral e alguns clientes e terapeutas em particular nos exasperamos com a ansiedade pela demora do aparecimento das mudanças. Daí surge a ideia de que a mudança, para ser verdadeiramente legitimada, precisa ser aparente, visível a olho nu. É o surgimento do broto de feijão que me traz o alívio de que todo esforço e processo não tem sido em vão. Mas quem disse que todos os processos envolvidos no desenrolar da vida são visíveis a olho nu? Surge então a necessidade de articularmos o externo, o que esperamos que fique aparente, com a essência, o que se processa internamente no território do sentir.

Antes que o broto de feijão possa se tornar aparente existe uma série de reações, processos e movimentos que são desencadeados internamente criando as condições necessárias para que o germinar possa ocorrer e seja sustentável e bem sucedido. Assim também é o processo da mudança no processo terapêutico. Ele não consegue se sustentar se for somente calcado na aparência, sem os alicerces internos que oferecem base para a continuidade do que foi conquistado. E construir alicerces é tarefa muitas vezes árdua, que implica investimento de energia física e psíquica e o entendimento de que avanços e retrocessos conviverão lado a lado. Esta não é uma trajetória linear.

Se o terreno não é bem preparado o que surgir de novo, tornando-se aparente, não irá se sustentar. A incongruência levará ao esfacelamento da novidade e os padrões anteriores, que são de base e estruturantes, retomarão seu lugar.

Portanto, o processo de mudança é um processo ativo. Apesar de falarmos aqui de movimentos internos, estes demandam esforço, paciência e principalmente de apropriação dos mesmos por parte da pessoa que os vivencia. Falar que deseja mudar é fácil, ir até o rabo das palavras (como escreveria Guimarães Rosa em “O Grande Sertão Veredas”) carece de coragem. Somente o terapeuta, por mais capaz, preparado e bem intencionado que seja, não é capaz de catalisar as mudanças necessárias por conta própria, sem o total comprometimento e percepção da relevância desta jornada por parte do cliente.

Oferecer boa luz, água na quantidade certa e condições propícias aos grãos de feijão faz parte do meu cuidado para com o bom desenrolar dos meus processos internos.

Já a ansiedade e imediatismo pelo aparente faz com que sabotemos o processo de mudança focando o olhar no surgimento do broto que não chega e esquecendo de nos implicarmos com as bases internas que deflagrarão a nova estrutura de funcionamento, mais adaptativa e saudável.

A todos nós que estejamos envolvidos ou buscando processos de mudança considero pertinente que nos perguntemos intimamente e reflitamos. Estou realmente implicado e me comprometendo, atento a minha ansiedade e imediatismo, sem me descuidar da minha corresponsabilidade e participação nesta empreitada?

Tudo na vida tem seu tempo para germinar.

Imagem: “La persistencia de la memoria” de Salvador Dalí

2 Comentários

Arquivado em Psicoterapia

2 Respostas para “Mudar! Pode ser pra ontem?

  1. Penso que obtemos crescimento e muitas lições aumentando o tempo que aguardamos o brotar do feijão ou prolongando o processo em que capacitamos nossas mudanças; retardar o momento da colheita, analisando e curtindo o processo de crescimento, além de muito importante para a concretização do mesmo, é extremamente prazeroso.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Mari Milia Lambertucci

    Os grandes sábios dizem que para mudar precisamos, inicialmente, mudar nossos pensamentos…
    Então, que mudemos os nossos comportamentos com consciência a partir de pensamentos de transformação paulatina, que transmutemos nossos hábitos imediatistas e que possamos viver um presente mais recheado de agora!!!

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