Mimimi

Patrícia Saar Paz

one finger

Expressão de conotação pejorativa, equiparável ao “chororô”. Fala-se em “mimimi” para indicar uma reclamação infundada, o choro gratuito e de manha, lamentações sem justificativa plausível. Esta é a minha compreensão do significado da expressão e é a partir dela que proponho a reflexão de hoje.

Há quem afirme que esta é a Geração do mimimi o que eu interpreto como uma acusação de que, entre nós, existem reclamações demais e motivos de menos. Será mesmo?

Não acho possível negar que muitas pessoas fazem “corpo mole”, “reclamam de barriga cheia” ou “se fazem de coitadinhas”. Provavelmente, é assim desde sempre e não é à toa que aprendemos essas expressões com nossos avós. No entanto, devemos considerar que esta geração tem mais canais de comunicação através dos quais se posicionar e goza de mais liberdade para emitir opiniões do que gerações passadas. Infelizmente, precisamos também levar em consideração que ainda há muita injustiça, desrespeito e desigualdade a combater.

Tornou-se corriqueiro considerar mimimi aquelas reclamações que estão em desacordo com o que se pensa ou com aquilo que já se vivenciou: um homem poderia considerar mimimi a revolta da mulher cis ou trans diante da cantada ouvida na rua, é apenas um elogio; uma pessoa branca pode chamar de mimimi as acusações de racismo dirigidas a uma piada, é só uma brincadeira; alguém que se manifesta a favor/contra um projeto de lei também poderá ter seus argumentos considerados mimimi, é coisa de coxinha/petralha.

Os exemplos podem seguir infinitamente e teriam em comum a retirada da legitimidade da reclamação feita. “Tudo hoje em dia é machista, homofóbico, transfóbico, racista, preconceituoso ou politicamente incorreto”, lamentam. E muitas vezes não param para verdadeiramente escutar o que foi dito pelo outro. Vejam bem, considerando o conceito proposto, se afirmo que a fala de meu interlocutor não passa de mimimi, estou desqualificando seu posicionamento e fechando o espaço de discussão. Não se trata simplesmente de discordância, mas de invalidação: uma fala que não é válida não merece ser ouvida, levada em consideração e respondida, é o fim da discussão.

Precisamos nos dar conta, no entanto, que nem toda forma de discussão é produtiva. Se o objetivo estiver restrito a provar-se certo, apontar o equívoco do outro ou afirmar “esta é minha opinião, eu tenho direito a ela”, pouco proveito será alcançado e talvez seja melhor evitar o desgaste.

Discussões saudáveis exigem que se ouça o que o outro tem a dizer com respeito, ainda que soe absurdo do próprio ponto de vista. Demandam abertura para rever conceitos e crenças como aquilo que são: construções, e não verdades absolutas. Requerem humildade para manter como foco a resolução do problema em questão deixando de lado as vaidades envolvidas e o anseio por estar certo. Exigem maturidade para encarar a discordância da perspectiva do outro sem dirigir agressividade ou desqualificação à pessoa do outro.

A discussão é importante. O conflito pode ser inevitável. Já o atrito, este sim, é desnecessário.

Imagem: “One finger fuga” de Peter Martensen

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