Sexo, Gênero e Orientação Sexual

Patrícia Saar Paz

the pink and blue project

Há algum tempo penso em escrever um texto abordando os termos que usamos para tratar da sexualidade humana. Considero que este seja um assunto importante por dizer respeito a todos nós: as dúvidas, confusões ou equívocos que podem surgir em relação ao seu uso levam desde à falhas na comunicação até à situações de violência que, acredito, devem ser combatidas. Por tratar-se de um assunto difícil, uma vez que muito conceitual, irei me concentrar na apresentação dos termos neste primeiro momento para, em textos futuros, trazer discussões relativas à temática.

Comecemos pelo sexo, provavelmente o mais simples de entender. Sexo se relaciona à biologia, à constituição genética de cada um. Todas as espécies animais são constituídas por fêmeas e machos que possuem corpos diferentes um do outro.

Assim como existem apenas dois sexos, os gêneros também resumem-se ao feminino e ao masculino, não existindo, a meu ver, justificativa para falarmos em “terceiro gênero” ou “terceiro sexo”, como algumas pessoas propõem. Enquanto o sexo é determinado biologicamente, as concepções de feminino e masculino relativas ao gênero vêm de construções históricas e sociais. Cada sociedade humana, ao longo de sua trajetória, define (e redefine) o conjunto de caraterísticas representativas do feminino e do masculino, atribuindo-as às fêmeas e aos machos. Um exemplo simples: relacionar a cor rosa ao feminino e azul ao masculino é uma construção cultural (em muitos países orientais a associação é tradicionalmente a oposta) e histórica (até a Segunda Guerra Mundial esse padrão não estava estabelecido desta forma). Embora sejam corriqueiras as afirmações, e até mesmo regras sociais, que relacionam de forma biologicamente determinada os comportamentos de homens e mulheres, devemos sempre considerar que culturas diferentes possuem representações completamente díspares sobre o feminino e o masculino.

Já a identidade de gênero está relacionada à forma como a pessoa reconhece a si mesma em função dos padrões de gênero que são estabelecidos pela sociedade. Isso significa que, enquanto o sexo é biológico e o gênero é construído socialmente, tendo em vista as expectativas existentes ao que alude ao feminino e ao masculino, a identidade de gênero é uma construção individual.

Uma pessoa cuja identidade de gênero e o sexo estão consonantes é uma pessoa cisgênera. Isso quer dizer que seu sexo de nascimento e seus sentimentos e percepções subjetivas sobre si são ambos femininos ou ambos masculinos (uma pessoa cujo sexo de nascimento seja feminino e que perceba a si mesma como mulher, por exemplo). Quando há divergência entre o sexo e a identificação que a pessoa tem de si, falamos em uma pessoa transgênera – este termo contempla travestis e transexuais.

Note que, até o momento, a orientação sexual não foi mencionada para explicar nenhum dos conceitos anteriores. Isto por ela não possuir relação necessária com o sexo e por nada ter a ver com a identidade de gênero. É equivocado acreditar que todas as pessoas trans (cuja identidade de gênero difere do sexo biológico), por exemplo, possuem orientação homossexual, embora essa crença seja recorrente.

A orientação sexual diz respeito à vivencia da sexualidade no que se refere ao seu encontro com o outro. Ela indica por quem uma pessoa se sente atraída afetiva e sexualmente. Costumo falar que a orientação sexual é como uma bússola interna que indica para onde o desejo da pessoa aponta: não é uma escolha, não é uma opção, não é influenciado pelo meio circundante. E nem tampouco contempla exclusivamente o ato sexual. É fundamental compreender que, ao tratarmos de orientação sexual, estamos nos referindo aos sentimentos românticos nutridos pelo outro, por quem a atração é naturalmente despertada.

Existem quatro tipos de orientação sexual: a pessoa homossexual sente-se atraída por pessoas do mesmo gênero; a pessoa heterossexual, pelo gênero oposto; a pessoa bissexual sente-se atraída pelos dois gêneros; finalmente, a pessoa assexuada pode apresentar orientação romântica (mas não sexual) por um dos gêneros, por ambos os gêneros ou não apresentar orientação romântica e nem sexual.

A fim de condensar e exemplificar os conceitos expostos, vejamos algumas possibilidades através da tabela abaixo, inspirada em tabela apresentada no site da PLC122 (clique na tabela para ampliar):

tabela sexo gênero orientação sexual

Diante de tantos conceito e categorizações, torna-se fundamental ressaltar a complexidade e plasticidade da sexualidade humana. Longe de propor rotulações que engessem e estreitem a percepção do outro, minha intenção é despertar a atenção de leitoras e leitores para a diversidade das vivências e importância de conhecê-las.

Como afirmei no início do texto, a violência praticada contra o outro em função de sua sexualidade deve ser combatida a todo custo, e essa violência ocorre no cotidiano, a partir de pequenos e significativos detalhes, que podem passar despercebidos a muitos de nós. Torço para que o respeito pelo outro, sua sexualidade, subjetividade e particularidades de suas vivencias, possa ser fortalecido pela melhor compreensão de alguns dos termos que foram aqui apresentados.

Imagem: Fotografias de JeongMee Yoon, ensaio The Pink and Blue Project.

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