Sentir e fazer sentido

Patrícia Saar Paz

Bodysnatchers Melissa McCracken

Por muitos anos fiz terapia com um psicólogo extremamente sensível e competente, que repetidas vezes, após discorrer sobre suas percepções acerca da nossa conversa, dirigia a mim a pergunta “isso faz sentido para você?”. Ao ouvir esta frase, era imediatamente levada a focar a atenção em mim e investigar o efeito que suas palavras haviam provocado em meus pensamentos (eu concordo com o que ele disse? nossas percepções estão indo pelo mesmo caminho? há algo que precise ser explicado melhor?) e também em meu corpo (um aperto no peito? um nó na garganta? um peso retirado dos ombros?).

Ouvir aquele “faz sentido?” e refletir a respeito desencadeava um momento muito significativo de nossos encontros, a tal ponto que, quando me tornei psicoterapeuta, senti necessidade de endereçar a mesma pergunta aos meus clientes.

Algumas vezes já no primeiro contato, quando nos apresentamos e combinamos como o trabalho acontecerá, eu aviso que essa pergunta será feita e que deve ser respondida com sinceridade. O questionamento sobre o sentido serve a muitas finalidades e pretendo nesse texto falar um pouco de quais são elas.

É curioso, mas muitas pessoas acreditam que os profissionais de psicologia detém algum tipo de conhecimento extraordinário que lhes permite saber mais sobre a pessoa que ela mesma. Como se fossemos capazes de vê-la melhor e por isso indicar o caminho correto por onde deveria seguir. Em épocas de sofrimento, quando se está confuso e sem rumo, pode ser mesmo tentadora a ideia de alguém que aconselhe, diga como agir e até mesmo que me explique para mim mesmo. Tentadora, porém ilusória.

Inspirada por um trabalho de Harlene Anderson e Harold Goolishian intitulado “O cliente é o especialista”, digo sempre aos meus clientes que o processo terapêutico é construído na parceria entre pelo menos dois especialistas: um em psicologia e outro em “si mesmo”. O olhar do psicoterapeuta é, sim, treinado para observar ângulos diferenciados das situações que são relatadas, mas isso não significa que ele traduza uma versão correta ou definitiva. Quando compartilho minhas observações e pergunto se minha fala faz sentido, estou convidando meu parceiro de trabalho a fazer sua parte e checar se há ou não correspondência. O campo em que essa investigação se dá é sempre interno, através da contemplação sobre si mesmo. Uma pessoa que se percebe confusa e sem rumo ou mesmo que chega para trabalho psicoterapêutico com a sensação de não se conhecer bem poderá ter dificuldade, mas também colherá grandes benefícios ao dedicar-se à investigação da resposta.

Seguindo o primeiro impulso, a resposta pode ser puramente racional: “sim, eu concordo” ou “não, eu discordo”. Por isso é necessário ir além e investigar em todo o corpo o impacto causado pelo que foi ouvido. Vamos nos lembrar de que são chamados sentidos os canais de comunicação através dos quais experimentamos o meio externo. Também é sentido aquilo que vivencio internamente, os sentimentos e as sensações corpóreas com as quais faço contato e que trazem informações complementares àquelas processadas estritamente no campo intelectual. Finalmente, sentido é a direção para qual me volto, o norte que persigo e que me guia no caminho que pretendo trilhar.

O aparentemente simples “faz sentido?” concentra em si um lembrete de que as compreensões do psicoterapeuta nada mais são do que hipóteses, lançadas para que haja apreciação por parte do cliente.  Para confirma-las ou descarta-las, é desejável que este faça uma investigação complexa, que vai além do âmbito intelectual e permite o uso dos sentidos, o contato com os sentimentos, o envolvimento de todo o corpo no processo.

As respostas a essa pergunta servem como confirmação ou como correção da rota de trabalho que vai sendo criada e as reflexões propiciadas por ela podem ser úteis ferramentas no processo de aumento de autonomia e independência dos clientes, uma vez que passam por seu autoconhecimento.

Imagem: “Bodysnatchers” de Melissa McCracken. A artista que escolhemos para esta publicação é sinesteta. A sinestesia é uma alteração no funcionamento neurológico que faz com que os estímulos de um sentido causem reações em outros. Melissa vê os sons que ouve em formas e cores e esta é a base que usa para seu trabalho como pintora. O quadro que postamos é a forma como Melissa vê a música Bodysnatchers do Radiohead. 

1 comentário

Arquivado em Psicoterapia

Uma resposta para “Sentir e fazer sentido

  1. Mari Milia Lambertucci

    A pergunta: “faz sentido?” traz o real a partir do que é sentido, vivido e experimentado pelo outro.
    Em uma conversa com um amigo pouco tempo atrás, ele relatou uma sessão psicodramática em grupo que havia participado. Disse que uma pessoa dirigia uma cena de sua vida e que outros eram chamados a fazer duplos (técnica em que as pessoas iam ao seu lado e diziam o que sentiam a partir do que estavam vendo). Ele comentou que alguns profissionais não traduziam aquilo que ele realmente sentia e ficou feliz por contrapor aquelas falas.
    Fiquei pensando, a partir do texto acima, como é importante termos autonomia e autoconhecimento, pois se meu amigo fosse uma pessoa sugestionável poderia sair cheio de pontuações errôneas ou inadequadas sobre sua própria vida.
    Então, que em nossas relações, não só terapêuticas, nos perguntemos Várias vezes: “isso faz sentido pra mim?”
    Quero dizer que o texto acima faz muito sentido…
    Sou grata!

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