A adoção afetiva de uma criança

Vinicius Cavalcanti de Abreu

Tânia Bailão Lopes (Mirtilo Gomes) - O que te passa pela cabeça O milagre da vida. E tu porque estas triste JPG

Gostaria de abordar neste texto um assunto delicado, mas que considero de extrema importância para reflexão: a adoção afetiva. Antes preciso esclarecer dois pontos. Apesar de usar o termo adoção, me refiro aqui a todo tipo de filiação, independente de ser biológica, através de técnicas reprodutivas ou processo legal. Também a paternidade/maternidade é referida em suas várias e possíveis configurações – homem, mulher cis ou transgênero solteiros, casal hétero/homoafetivo ou terceiros que desempenhem esta função. Como sempre, a visão de família do Multiverso Terapêutico considera a diversidade de seus arranjos.

Tornar-se pai ou mãe é coisa muito séria. Exige não somente preparação material e instrumental (aprender a cuidar, nutrir e educar), mas também emocional. O que chamo aqui de adoção afetiva abrange o vasto terreno da inclusão da criança no espaço físico e de trocas afetivas de uma família. Envolve pertencimento, presença dos pais, respeito, amor, disponibilidade para o cuidado e interesse legítimo.

Proponho duas perguntas: sinto-me acolhido e desejado afetivamente pelos meus pais? Sinto que existe diferença significativa na qualidade da relação afetiva que estabeleço com algum deles? As respostas a estas perguntas ajudam a perceber a falta que uma real adoção afetiva faz ou a compreender a diferença que este acolhimento emocional proporcionou na minha história.

Toda criança, seja filha biológica ou não, necessita ser adotada no campo dos afetos. Esta adoção concede status de existência, confirma a legitimidade, singularidade, adequação, capacidade e importância deste pequeno ser para sua família e para o mundo. Claro que a criança também precisará de limites, hierarquia definida e autoridade, entretanto, sentir-se amada e desejada é fundamental, afinal, o que pode estar inadequado é o comportamento, não a pessoa.

Uma criança constrói a visão inicial de si mesma através do olhar e das falas de seus pais ou responsáveis e nós adultos nem sempre nos sensibilizamos para o peso emocional do que dizemos. Em momentos de raiva, frustração e descontrole atiramos palavras que machucam tal qual a violência física. E como é difícil desconstruir auto percepções negativas aprendidas na infância! Muitas se transformam em verdades absolutas e limitadoras que atrapalham conquistas e merecimentos no curso da vida.

É extremamente penoso para um filho(a) sentir-se sem espaço na relação com um ou ambos os pais. Perceber no olhar que por mais que se esforce nunca conseguirá alcançar admiração. Viver com a sensação de que é rejeitado ou pouco digno de amor. Sentir-se “inadequado”, “mal”, “feio”, “burro”, “errado” ou devedor pelo tempo e investimento dispendidos em sua criação.

Como será que se sente um filho(a) que escuta a frase: “se eu soubesse que você me daria tanto trabalho menino(a)…”. As reticências oferecem lacuna cruel a ser preenchida. Já ouvi crianças se queixarem de só receberem críticas e seus pais contra argumentarem que elogios não são necessários pelo cumprimento das obrigações. Será que não?

Prejuízos na adoção afetiva podem ser acarretados por diversos fatores, mas estes em hipótese alguma serão de responsabilidade da criança. São os adultos que precisarão se implicar por suas dificuldades pessoais e imaturidades relacionais em busca de uma paternidade/maternidade mais saudável. Infelizmente nem todos estarão dispostos ou preparados a enfrentar e trabalhar seus traumas e problemas.

Entretanto, mesmo que eu tenha sido pouco ou mal adotado isso não necessariamente significará permanecer preso a esta carência afetiva. Tenho como perspectiva que o amor também é um aprendizado. Podemos aprendê-lo e coloca-lo em prática redimindo e ressignificando o passado. Sempre é possível desconstruir os conceitos negativos aprendidos sobre nós mesmos. Apesar de trabalhoso o resultado é libertador.

Inegavelmente as histórias de rejeição, maus tratos, indiferença ou abandono marcam profundamente nosso mundo interno e se destacam nas narrativas sobre nossa vida. Resgatar vivências positivas e confirmadoras, localizar pessoas cujas vozes foram acolhedoras e afetivas é importante para que o olhar se amplie e novas versões possam ser acrescentadas.

Além do mais, ao crescermos e nos tornarmos adultos assumimos o papel de responsáveis por nosso próprio acolhimento, cuidado, nutrição e valorização. Será que também tenho conseguido me adotar?

Imagem: “O que te passa pela cabeça? O milagre da vida? E tu, porque estás triste?” de Tânia Bailão Lopes (Mirtilo Gomes)

1 comentário

Arquivado em Família

Uma resposta para “A adoção afetiva de uma criança

  1. Mari Milia Lambertucci

    Acredito que a forma afetiva com que nos relacionamos com a vida e com as pessoas nos faz seres mais felizes.
    Se estou me adotando no momento?
    – Algumas vezes sinto que não… então, ficou pra mim um chamado:
    me acolher mais!!!
    Gratidão.

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