Psicoterapeutas também têm preconceitos

Patrícia Saar Paz

Mapa da Frenologia

Achou estranha a afirmação do título? Pois bem, o objetivo é exatamente chamar atenção para o fato de que todo ser humano pode ter algum tipo de preconceito. Mesmo aquela pessoa de quem são esperados posicionamentos desprovidos de julgamento, seja por sua formação e atuação profissional, por sua história de vida ou convicções políticas, morais e religiosas, está sujeita a pensar, falar e agir de maneira preconceituosa.

Seria o preconceito simplesmente um pré-conceito, como muitas pessoas afirmam? Uma especulação feita sobre um objeto, pessoa ou situação antes de conhecê-lo de fato, que pode ser confirmada ou rejeitada a partir de uma aproximação e maior conhecimento? Temo que não seja assim tão simples.

O preconceito tem sido descrito por seus estudiosos como um julgamento negativo e inflexível atribuído a um elemento em função de alguma de suas características distintivas, que tende a ser generalizado para todos os elementos que compõem o grupo do qual faz parte, e acarreta em condutas de rejeição. Pensemos a partir de um exemplo: pessoas canhotas (característica distintiva de um elemento/grupo) são más (julgamento negativo e inflexível) e por esse motivo devem ser afastadas de crianças (conduta de rejeição). Ele predispõe posicionamentos desfavoráveis voltados para o objeto do preconceito e provoca pensamentos cristalizados, focados exclusivamente nas crenças que se possui. Posso até tolerar alguma proximidade com esta pessoa canhota, mas acredito que cedo ou tarde ela fará algo errado, afinal, canhoto é canhoto! Ou seja, a pessoa preconceituosa tem dificuldade de observar a realidade que envolve o objeto de seu preconceito uma vez que se mantém fixada em suas convicções a seu respeito.

Esta limitação na percepção da realidade pode até mesmo impedir que se perceba o próprio preconceito, tornando comuns frases como “eu não tenho preconceito contra X, inclusive tenho amigos que são X”, “você é X, mas não é como esses outros X que andam por aí” e diversas outras falas e condutas que se tornam preconceituosas na tentativa de negarem o preconceito.

Longe de ser uma simples especulação, de caráter individual e baseada em experiências vividas, o preconceito tem origem nas relações sociais e faz parte da sociedade, influenciando e definindo a maneira como nos relacionamos uns com os outros. Ele pode estar profundamente enraizado e ser justificado por valores tão fundamentais para um grupo que acaba por ser naturalizado e encarado como verdade ou como “opinião”: não tenho nada contra pessoas canhotas, mas me sinto no direito de não me relacionar com elas, pois seu estilo de vida está errado.

Chega ao ponto de pessoas que são alvo de preconceito não conseguirem perceber a experiência como tal e nomeá-la. Trata-se do preconceito velado, extremamente comum e altamente violento, pois tende a colocar sua vítima em uma posição na qual é difícil mobilizar estratégias de enfrentamento: se não há preconceito, não há contra o que lutar. A naturalização leva à reprodução do preconceito sofrido (ou tantos outros) – é ingenuidade pensar que pessoas vítimas de preconceito não possam também agir de maneira preconceituosa. Eu posso até ser canhota, mas não preciso andar por aí exibido minha mão esquerda. Tem coisas que a gente deve disfarçar, não é? Afinal, no fundo eu sou uma boa pessoa.

O que podemos fazer a esse respeito? Penso que o primeiro movimento seja admitir que, sendo parte de uma sociedade preconceituosa, seguramente possuímos traços de preconceito que podem ser fortes ou fracos, mas que de alguma maneira influenciam nossas ações. A partir daí, buscar observar nossas condutas com coragem e humildade – para aqueles que lutam para combater o preconceito, pode ser bastante difícil e doloroso percebê-lo em si – a fim de muda-las naquilo que for adequado.

É muito mais útil vasculhar nossas crenças em busca de construções preconceituosas – e encontra-las! – do que negar o preconceito (o nosso ou o coletivo) e seguir com pensamentos de somos todos iguais, somos todos humanos, é desnecessário discutir. Agir de forma preconceituosa ou afirmar que o preconceito não existe, a meu ver, são condutas igualmente danosas.

Não somos todos iguais e isto não é algo ruim.

O mundo é diverso. Cada pessoa, grupo ou etnia possui singularidades e especificidades que precisam ser consideradas e respeitadas como tal, mas que não devem ser destacadas como justificativa para rejeição. Este é um assunto delicado e que precisa manter-se em discussão, partindo de reflexões ponderadas e respeitosas, para que as lutas por igualdade de direitos e condições não sejam equivocadamente qualificadas como “lutas por privilégios”.

Imagem: Mapa da Frenologia no século XIX.

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Arquivado em Temáticas Contemporâneas

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