Quando a conversa do casal não funciona

Vinícius Cavalcanti de Abreu*

casal

A comunicação de um casal, independente de serem namorados, casados ou “ficantes”, nem sempre é algo simples. Ela envolve a transmissão de mensagens carregadas de emoções entre duas pessoas distintas, vindas cada qual de uma família, com diferentes histórias de vida, limitações e competências singulares e acostumadas a se expressarem de maneiras não necessariamente similares. As trocas que são estabelecidas a partir deste encontro não só desafiam as zonas de conforto individuais como confrontam “verdades” e ideias enraizadas, espelham as dificuldades relacionais de cada um e demandam flexibilidade e principalmente negociação em busca de maior bem estar.,

Para nós, seres humanos, é impossível não comunicar. Alguns podem achar estranha esta afirmação, mas ela é bem simples de ser observada. O olhar de reprovação direcionado ao companheiro ou companheira consegue transmitir uma mensagem capaz de ser entendida mesmo sem o uso de palavras. Até mesmo o silêncio de um dos envolvidos em uma conversa poderá transmitir múltiplos significados dependendo do contexto em que for usado e das emoções vivenciadas por quem se cala. A comunicação sempre está atrelada à emoção e pode ser expressa por todo o corpo através de gestos, expressões faciais e olhares: é a chamada comunicação não verbal.

Tudo que atrapalhe o entendimento claro de uma mensagem, estimule distorções de sentido ou comprometa a fluidez de uma conversação torna-se um risco à saúde relacional e ao prazer da convivência, pois dificulta o manejo de conflitos e leva ao desgaste da relação.

Sem a pretensão de esgotar este assunto, gostaria de refletir sobre cinco posturas muito comuns na comunicação e que podem levar a dificuldades e confusões nas interações entre casais. A divisão em tópicos é apenas didática e será possível perceber a inter-relação existente entre eles.

Conteúdo x Forma

Tudo o que é comunicado tem um conteúdo (o assunto que é abordado) e uma forma (a maneira que se encontra para transmitir esta informação). A forma utilizada para dizer algo será fundamental para os rumos de uma conversa e influenciará na maneira como a mensagem será recebida. A escolha equivocada das palavras, o tom de voz ríspido ou emoções conflitantes que acompanhem o que está sendo expresso podem comprometer o entendimento de um conteúdo legítimo e “desandar” a conversa. Aquilo que é dito de forma impensada e pouco cuidadosa mobiliza as defesas de quem recebe a mensagem e propicia um clima tenso e pouco amistoso.

Falar de si ou falar do outro?

Em conversas mais acaloradas, principalmente as chamadas DR (discussões da relação), motivadas por algum desconforto ou divergência entre o casal, é muito comum o vício de falar do outro, ao invés de si, dos seus sentimentos, frustrações ou de como a situação ocorrida o incomodou. Nestes momentos é tentador “apontar o dedo” com o intuito claro de machucar e julgar. O que se vê é um movimento ascendente de irritação que em nada contribui para a superação do ocorrido e o aprendizado na relação.

Aprender a falar de si é um exercício muito importante e pouco estimulado em nossa cultura. Conseguir localizar sentimentos e sensações, pontos de mágoa ou decepção, é um trabalho de autoconhecimento. Muitas vezes é mais fácil iniciar uma frase com a expressão “porque você…” do que “eu estou me sentindo…”.

As emoções

Como dito anteriormente, é impossível que nossas comunicações estejam desprovidas de emoções. Entretanto é inegável que a expressão destas emoções, sem o devido cuidado e correto direcionamento, tenha o potencial de assumir consequências catastróficas. Agressões verbais e até mesmo físicas sinalizam que o respeito ficou em segundo plano na relação.

Destaco aqui principalmente a raiva. Muito importante de ser aceita e expressa, mas sem abrir mão do cuidado consigo e com o outro. A ironia, igualmente tóxica, é uma maneira dissimulada de veicular a raiva e agredir. Determinadas falas e atitudes, manifestadas no calor das emoções, são muito difíceis de serem esquecidas.

Disputa de poder

Quando o casal entra em disputa na busca de razão o entendimento e o bem comum ficam de lado. O importante é comprovar os pontos de vista e mostrar quem está certo. Podem ter certeza, quando um ganha, ambos perdem.

Jogo do cabide

Toda relação é uma construção conjunta. O jogo do cabide é a transferência recíproca de responsabilidades na busca de culpados pelos problemas do casal. Cada um deposita no “cabide” do outro as falhas e erros e ninguém assume sua parcela de responsabilidade e se implica diante das dificuldades para a construção de uma relação mais harmônica.

Quando a conversa do casal não funciona e sozinhos sentem-se impotentes para contornar a situação é muito importante procurar ajuda de um profissional capacitado em psicoterapia de casal que possa mediar o entendimento e possibilitar que os pontos cegos da interação sejam superados.

Um casal competente e funcional não é aquele que não tem conflitos ou brigas, mas o que consegue articular suas dificuldades evoluindo nos diversos ciclos da vida em comum. Quando existe interesse, respeito e vontade de aprender, gradativamente, consegue-se avançar em busca de formas de comunicação mais eficientes e saudáveis.

Imagem: créditos não encontrados.

Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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