Curando feridas

 

Patrícia Saar Paz*

Las lágrimas de colores de Frida

 

Muitas vezes o processo terapêutico trata de feridas e ofensas já antigas, mas que seguem causando sofrimento por ainda não terem sido levadas a um desfecho adequado. A pessoa que sofre pode prender-se à história vivida de tal forma que fica impedida de encontrar diferentes ângulos para encarar aquilo que viveu, criando um caminho sem saída no qual parece não haver possibilidades de cura.

Ao revisitar esses lugares internos de sofrimento no processo terapêutico, tem-se a oportunidade de reorganizar as histórias de maneira a romper com a estagnação que estas provocam. Uma postura compassiva pode ser uma grande aliada neste processo.

Chamo de compaixão a compreensão do estado emocional de alguém que sofre, somada ao sentimento piedoso diante desse sofrimento e do desejo de aliviar, de alguma maneira, a dor percebida. Contemplar o passado com olhar renovado e compassivo permite perceber que, em alguns casos, as ofensas sofridas, responsáveis por mágoa e rancor, podem também ser fruto das dores e dificuldades das pessoas com quem se convivia.

Trata-se de um exercício de mudança de perspectiva no qual me disponho a curar minhas feridas assumindo minha parcela de responsabilidade por elas, quando for o caso, e reconhecendo que quem me agrediu pode merecer um tratamento menos severo, por estar também enfrentando dificuldades com as quais não era capaz de lidar adequadamente.

Na minha perspectiva, nem todas as situações e pessoas poderão receber esse tratamento compassivo, mas essa será sempre uma avaliação individual. Esperar que vítimas de abuso, por exemplo, compadeçam-se de seus violentadores pode ir muito além de suas condições. No entanto, o sofrimento vivido pelas vítimas é digno de compaixão: compadecer-se de si mesmo é algo possível e necessário.

Julgo ser importante diferenciar a postura compassiva daquela de vitimização: colocar-se como vítima (diferentemente de ser vítima, como no exemplo acima) pode acarretar um assujeitamento que deixa na pessoa a sensação de ausência de responsabilidade por sua cura pessoal e sem condição de agir de forma produtiva na recuperação de sua saúde física, psíquica e emocional.

Compadecer-se de alguém ou de si mesmo afeta a maneira de pensar, sentir e agir e pode ser um passo fundamental no movimento de ressignificação. Ressignificar é exatamente esse processo de olhar para a história vivida com novos olhos, capazes de enxergar para além daquela versão com a qual se habituou, dando atenção a possíveis novas perspectivas. Implica na compreensão de que as vivências não podem ser mudadas, aquilo que aconteceu não deixará nunca de fazer parte de sua história, mas os sentimentos relativos aos episódios dolorosos podem ser alterados, permitindo que, enfim, seja encontrado alívio.

Imagem: “Las lágrimas de colores de Frida” de Natmir Lura.

Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

1 comentário

Arquivado em Psicoterapia

Uma resposta para “Curando feridas

  1. Mari Milia Lambertucci

    Curar feridas, como dito no texto, faz parte de um processo de recontar a própria história, fazer um releitura de nossas vivências, facilitadas principalmente no processo terapêutico. E como diz Jacob Levy Moreno, “a segunda é sempre a libertação da primeira”. Que possamos a cada dia refazer com espontaneidade e criatividade nossas histórias.

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