Fórmula para o insucesso

Vinícius Cavalcanti de Abreu*

fórmula para o insucesso

Como diz Cazuza em uma de suas canções: O tempo não para. A humanidade está em constante movimento, assim como a sociedade e a cultura. O que dizer então da tecnologia? Esta parece avançar cada vez mais rápido com suas inovações. Ainda não dirigimos carros voadores, mas ganhamos asas através da internet. Para quem é do tempo do orelhão, quanta mudança!

Os hábitos também sofreram alterações. O dinheiro, cada vez mais virtual, terminais e máquinas que facilitam transações diminuíram o tempo necessário para realização das tarefas do dia a dia. Quando criança acompanhava minhas tias avós em imensas filas para receber pagamento – em espécie – na agência do BEMGE, depois, um pequeno lanche para compensar a grande demora. Viver demandava tempo e espera.

 Mas, se a vida “teoricamente” está mais simples, porque constantemente escutamos reclamações sobre a falta de tempo? Por que calmantes e ansiolíticos tem sido tão necessários? Será que nos desacostumamos a esperar? Palavras como estresse, sobrecarga e exaustão são ouvidas constantemente nos discursos de clientes que procuram os consultórios de Psicologia. E o pior, por detrás da queixa reside um leve sorriso de orgulho por dizer-se muito ocupado e requisitado.

Numa sociedade capitalista, tecnológica, globalizada e de intensa circulação de informações o valor reside não apenas no ter, mas no fazer. Parar tornou-se sinônimo de estagnação e satisfação é agora a grande vilã da ambição e do desenvolvimento pessoal. “Ter que” nos obriga a ligar o piloto automático e agir a qualquer custo. Não sei para onde vou ou por que quero ir, mas estou a caminho!

Movimentar-se pela vida desconectado de propósito e sentido é ser como a mariposa que se debate contra a luz (já falamos sobre sentido aqui). É alienar-se do caminho e processo em busca do alcance de metas que, aliás, dificilmente trazem satisfação já que o celebrar e curtir, tão importantes nas conquistas, fica em segundo plano. Ansiedade, estresse, burnout, depressão e sintomas físicos vêm comunicar o que meu eu, na pressa, se recusa a escutar.

Vejo crianças fazendo tantas atividades e correndo tanto para cumpri-las com maestria que me pergunto onde foi parar o prazer. Onde foi parar o tempo para ser criança. Estão de tal forma super estimuladas que não conseguem curtir o ócio ou aproveitar a criatividade do espaço em branco. O tédio pelo tempo livre engole tudo!

Ter metas, objetivos e propósitos é muito importante. Mas saber se localizar em cada um deles é fundamental. Diferenciar o que é essencial e suficiente do que é excessivo e acessório ajuda a balizar a caminhada. Contemplar é um ótimo exercício e o vazio pode ser um lugar muito fértil de se estar. Descansar também serve como remédio e precisa ser intercalado com o fazer. Afinal, sou merecedor ou “mereço é dor”? Como tenho dosado ter, fazer e ser em minha vida?

Imagem: autoria desconhecida.

Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

1 comentário

Arquivado em Temáticas Contemporâneas

Uma resposta para “Fórmula para o insucesso

  1. Mari Milia Lambertucci

    Acredito que a “Fórmula para o insucesso” é estar muito tempo no furacão da nossa vida e nos esquecermos de ficar no olho – dentro do furacão – como vc disse no “vazio”, mas já comprovado que é repleto de energia. Que possamos ter sabedoria para puxar o “freio de mão” nas nossas ações e humildade para reconhecer que precisamos de repouso, recolhimento, relaxamento… precisamos nos conectar com o que realmente é valioso: nossa essência divina!!! Se somos merecedores? Sim, somos merecedores do melhor, mas lembrando Renato Russo em suas várias canções:
    – “Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo… temos todo tempo do mundo”
    – “Mas é claro que o sol vai voltar amanhã”, então pra que pressa?
    – “Mas eu sei que um dia a gente aprende, quem acredita sempre alcança”

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