Desafios do HIV

Patrícia Saar Paz e Vinícius Cavalcanti de Abreu*

desafios do hiv

 

Dissemos em texto anterior que a “vida do soropositivo é fundamentalmente igual a de todas as demais pessoas, com suas possibilidades de felicidade, crescimento e bem estar” (neste texto aqui). Igual, já que, a sorologia positiva surge como um dos vários desafios da vida humana que podem demandar enfrentamento e superação. Nesta perspectiva a soropositividade é parte da vida de uma pessoa, mas não a define como sujeito. Porém, quando o HIV está presente, algumas dificuldades muito específicas podem se colocar no caminho.

Costumamos dizer que o vírus não escolhe seus portadores. Ainda que muitos insistam na ideia equivocada dos grupos de risco, o HIV pode fazer parte da vida de qualquer pessoa, independente de idade, nível de instrução, classe social, etnia e orientação sexual ou religiosa

Mesmo que tamanha diversidade seja encontrada entre seus portadores, percebemos em nosso trabalho com este tema que algumas inquietações e medos podem ser vivenciados com frequência por quem se descobre soropositivo.

Relacionamento afetivo

Para a pessoa soropositiva algo simples como iniciar um relacionamento pode se tornar um grande estressor. Alguns questionamentos inundam o pensamento trazendo confusão e desamparo: Será que conto sobre a sorologia? O que faço caso ela(e) se assuste e revele meu diagnóstico para outras pessoas? E se eu for rejeitada(o) ? Tenho o direito de não contar, mas como faço se depois meu/minha companheiro(a) se sentir traído(a)?

Muitas vezes a vontade é de desistir da vida afetiva, buscar somente pessoas soropositivas ou apenas vivenciar relacionamentos superficiais. Estas possibilidades, além de limitadoras, vêm acompanhadas de muita tristeza e angústia. A sensação é de que antes do HIV “tudo” era mais fácil e espontâneo.

Morte, adoecimento e rejeição

 Podemos considerar a morte em duas esferas, a física e a social. A morte física desperta o medo da finitude, é o susto diante da ideia de não ter mais tempo para viver bem a vida e ir em busca de seus sonhos. O adoecimento deflagra a impotência e falta de controle sobre a saúde do corpo. Vem acompanhado do medo da dor e do isolamento da internação hospitalar. Medo que a condição de paciente leve à de dependente, necessitando assim, de cuidado e auxílio constante onde antes havia autonomia.

A morte social é o pavor da discriminação e preconceito  que sentenciam à rejeição e abandono (tratamos deste tema aqui).

O receio destas “mortes” pode ser inflacionado após a descoberta do HIV causando grande sensação de vulnerabilidade.

Ter a sorologia exposta

Revelar sua sorologia é algo que pode causar grande ansiedade ao portador do HIV. O medo de ser rejeitado por pessoas próximas e de ter sua intimidade exposta sem consentimento abala a confiança de quem vive com o vírus e leva à restrição de sua rede de apoio. Muitas vezes a pessoa se percebe sem ter com quem conversar sobre as angústias, temores e experiências relativas ao HIV ou se fecha para esta possibilidade receosa das consequências deste voto de confiança. Acaba por experimentar forte sentimento de solidão e tem a sensação de carregar sozinha um grande fardo.

Importante informar que a escolha de revelar a sorologia cabe somente ao portador e o sigilo lhe é assegurado no que diz respeito aos tratamentos médicos: profissionais de saúde não podem divulgar esta informação sem autorização (informações sobre os direitos do soropositivo aqui).

           

É fundamental que a pessoa busque ajuda para lidar com os desafios impostos pela condição de portadora do vírus. Contar com o apoio de pessoas queridas e de profissionais especializados em quem se tem confiança pode auxiliar na reorganização da vida, para que se consiga sentir que ela “está de volta aos trilhos” após momentos que costumam ser bastante turbulentos. Perceber que outras pessoas vivenciam situações e lidam com dificuldades semelhantes àquelas que se está enfrentando também é muito importante. As trocas que permitam este tipo de experiência podem ser bastante enriquecedoras e devem ser buscadas.

Imagem: autoria desconhecida

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34218 e Vinícius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 são psicólogos clínicos na cidade de Belo Horizonte (MG). Atendem crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

 

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