Ajuntando cacos

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

Martin Klimas

Algumas vivências emocionais são difíceis de serem traduzidas em palavras. Nestes momentos, metáforas ajudam a clarear os sentimentos e expressar o que se passa em nosso mundo interno. Sentir-se “anestesiado”, “quebrado por dentro”, “sem chão”, com a “alma rasgada” ou o “coração feito em pedaços” ilustram de forma quase palpável algo muitas vezes difícil de descrever.

No girar da roda da vida é natural nos decepcionarmos e sermos afetados ou machucados por dissabores e desilusões. Expectativas e idealizações muito altas podem acarretar fortes quedas e dolorosa sensação de que algo se quebrou por dentro.

Meu mundo caiu

O término de um relacionamento, a descoberta de uma traição ou problema de saúde, a morte de alguém querido, perda do emprego, um empreendimento que abre falência, um grande “calote”, a decepção com uma amizade, o não concretizar de um sonho, ser vítima de alguma violência, humilhação, discriminação ou injustiça… São infinitas as situações que podem abalar nossas estruturas emocionais e despertar a sensação de esfacelamento interno.

Como a incerteza faz parte da vida, o que em algum momento está inteiro pode vir a se quebrar. E esta é uma lógica que não se aplica apenas aos bens materiais. Nos cercamos de certezas e ideias de estabilidade mascarando a inconstância que é viver.

E agora, José?

Mas o que fazer quando estas quebras acontecem e nos desestruturam? Infelizmente não existe receita do tipo – 10 passos infalíveis para superar momentos difíceis – mas com certeza algumas atitudes não vão ajudar: se culpar ou vitimar; negar autocuidado; descarregar a raiva em si (autoagressão) ou nos outros; fingir estar bem se expondo a situações que aumentem ainda mais a ferida interna (já referido aqui); buscar refúgio no álcool, demais drogas e vícios; não pedir ajuda ou fugir dos sentimentos e do contato com a dor (já referido aqui).

As atitudes e escolhas nestes momentos difíceis influenciarão a maneira como esta quebra será vivenciada e “curada”. Não adianta brigar com o real, o acontecido não desaparece simplesmente porque não quero aceita-lo. Inclusive, aceitação é uma palavra muito importante nestes momentos.

Ajuntando cacos

Quando aceito o que aconteceu e acolho os sentimentos de raiva, medo ou tristeza que sinto começo realmente a encarar a situação. Antes disso, é comum tentar evitar, negar ou fugir do desconforto, tamanha sua intensidade. Estas quebras geralmente acontecem contra nossa vontade e quanto mais inesperadas, maior seu impacto.

Após o início do processo de aceitação, faz-se necessário ajuntar os cacos.

“Algo se quebrou. Não queria que isso acontecesse! Sinto tanto desconforto! Por que a vida fez isso comigo? Não era para ser assim! Sei que não adianta brigar, mas, o que faço com isso?”

Em alguns momentos o melhor destino para algo que se quebrou será a lata de lixo. Mas esta decisão não deve ser tomada de maneira impulsiva como reação a dor. Jogamos fora aquilo que não faz mais sentido (referido aqui) e não é mais parte de nossas vidas. As decepções ocupam grandes espaços que às vezes relutamos em desocupar. Exige desapego do sofrimento para seguir a vida sem amargura e apesar das cicatrizes. Exige inclusive reconhecer os aprendizados.

Já em outros casos, os cacos ajuntados também podem dar origem a lindos mosaicos que inspiram e renovam a esperança na vida e na criação. Esta é uma arte que consiste em transformar dor em amor e construção. O que antes era caco, a partir de uma mudança de foco e ponto de vista torna-se material para adornar a vida. Nós seres humanos podemos ser exímios e criativos artesãos.

E se falamos em criatividade, vários outros caminhos, singulares e possíveis, podem ser encontrados para estes cacos ajuntados. Apesar de não ser fácil, ajuntar e destinar os cacos restabelece o fluir da vida e a continuidade do processo de evolução. A desconstrução, apesar de dolorosa, abre um infinito de possibilidades para reconstrução.

O mais importante de tudo é que não preciso passar por este processo sozinho. Companhias podem ser muito bem vindas e necessárias.

Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores.

Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores.

Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores.

Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores.

(…)

Estou podando meu jardim.

Estou cuidando bem de mim.

(Meu Jardim – Vander Lee)

Imagem: Exploding Flowers, Martin Klimas.

Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

1 comentário

Arquivado em Psicoterapia, Relacionamento

Uma resposta para “Ajuntando cacos

  1. Uau, que texto lindo!
    Forte e impactante!
    Adorei!
    Att, Camilla Hoffmann

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