A utilidade dos rótulos

Patrícia Saar Paz*

Campbells_Soup_Cans_MOMA

Este texto foi pensado e escrito para atender ao pedido feito por um de nossos leitores que gostaria de saber nossa opinião acerca de uma síndrome específica. O resultado aqui apresentado representa nossa compreensão do tema e corresponde àquilo que norteia nosso trabalho. Esperamos que estas ideias sejam uteis para ampliar a discussão que nos foi proposta.

Para que serve o rótulo de um alimento? Se sou diabético, ele confirma se o produto é diet; se sou alérgico a algum corante, indica sua presença; se nunca o cozinhei antes, ensina o modo de preparo; para qualquer pessoa, informa a data de validade do produto. Rótulos são úteis. No caso dos alimentos eles permitem fazer escolhas mais conscientes, de acordo com as necessidades de cada um.

Distinguir, separar e categorizar são operações que fazemos constantemente, sem nos darmos conta. Faz parte do viver humano tentar compreender o mundo que nos cerca. Criar categorias pode nos ajudar nesta tarefa. No campo científico estas operações ocupam um lugar importante, pois compõem a rotina de uma forma tradicional de “fazer ciência”. Na área da saúde, por exemplo, existem Manuais e Classificações internacionais dedicados a listar sintomas e descrever características comuns a um determinado quadro para auxiliar no diagnóstico, tratamento e facilitar a comunicação entre profissionais.

No entanto, exageros são perigosos, especialmente quando lidamos com doenças, síndromes ou transtornos psíquicos.

Para alguém que está sofrendo e não consegue compreender bem sua vivência ou se incomoda com características que percebe em si e que causam desconforto, pode trazer bastante alívio dar um nome a essas sensações e perceber que há outras pessoas em situação semelhante. O problema é que eu tenho o transtorno X. Entretanto, enquanto muitos irão partir deste ponto para buscar maneiras de melhorar sua qualidade de vida, outros tantos poderão ficar paralisados e passarão a ser o transtorno X, justificando a partir dele todas as dificuldades e dissabores da vida. No primeiro caso, o rótulo serve como norteador, no segundo ele engessa e impede a evolução.

Entre aqueles que convivem com o “portador” do transtorno X, há pessoas que farão julgamentos baseados naquilo que conhecem sobre o transtorno, sem terem o cuidado de entrar em contato, de fato, com a pessoa em questão. Infelizmente, até mesmo na área da saúde, vemos profissionais desconsiderando as vivências pessoais e experiências singulares daqueles que acompanham. Esta postura despersonaliza e transforma o sujeito no transtorno X que lhe foi atribuído, em nada contribuindo com sua evolução e podendo gerar ainda mais sofrimento.

Os Manuais e Classificações são importantes e podem ser muito úteis aos profissionais de saúde. Porém devem ser vistos como auxiliares, ferramentas de trabalho que possibilitam uma linguagem comum, facilitam a comunicação entre colegas e apontam diretrizes para o tratamento. Não podemos perder de vista que cada pessoa carrega suas histórias e experiências e estas influenciarão a forma de vivenciar dificuldades de saúde, sejam físicas, psíquicas ou emocionais.

Imagem : “Campbell’s Soup Cans” de Andy Warhol.

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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