Famílias Homoafetivas

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

Six parrots

Como meu objetivo é falar sobre as famílias homoafetivas – aquelas formadas por gays, lésbicas, transexuais e travestis – é fundamental nos questionarmos se somos capazes de reconhecê-las e respeitá-las como formações válidas e legítimas da vida familiar.

Portanto, antes que você dê continuidade à leitura deste texto gostaria que respondesse ao questionamento abaixo, justificando seu ponto de vista.

Família = Homem + Mulher + Filhos?

Quem me conhece ou acompanha meus textos e trabalho sabe que procuro sempre ter uma visão inclusiva. Se o piano, instrumento musical belíssimo, tivesse apenas uma única tecla, perderia totalmente seu encanto. Para fazer música são necessárias várias teclas e arranjos diferentes que, combinados, dão origem a diversas melodias. Assim também é minha visão de família. As teclas e combinações podem ser múltiplas e dar origem a arranjos de beleza ímpar. Então, minha resposta à pergunta inicial é: sim, mas não apenas.

Muitas pessoas tem a sensação de que as famílias homoafetivas são um fenômeno recente, “coisas” da vida pós-moderna, mas elas sempre fizeram parte do mundo e da realidade social. Talvez, o que ocorra, é que no atual momento histórico elas tenham conquistado maior visibilidade e notoriedade, principalmente a partir das lutas pelo reconhecimento dos direitos da população LGBT. Será que num passado não tão distante elas eram/podiam ser vistas e reconhecidas? Este tipo de “cegueira” não permite ver e nomear aquilo que antes de tudo não se quer enxergar e aceitar.

Mas, por outro lado, tudo que está mais visível se torna também mais visado, já que é capaz de incomodar muito mais do que quando era mantido no anonimato e na exclusão. A maior participação destas famílias na vida pública, sua representação em comerciais, filmes e novelas, começa a questionar visões ultrapassadas, conservadoras e enrijecidas de mundo, o que deixa muita gente se sentindo ameaçada.

Precisamos entender que, por pertencerem às homossexualidades (aqui no plural devido a sua diversidade de manifestações) estas formações familiares têm sido alvo de condenação, perseguição e desvalorização ao longo do tempo.

Vários são os discursos usados para este propósito. O “carro-chefe”, infelizmente, é de cunho religioso. Na mesma medida que a sociedade tenta controlar e ditar as expressões da sexualidade humana também busca sacralizar e tornar imaculada uma imagem específica de família. Quando se associa as homossexualidades à loucura, promiscuidade, pecado, degradação moral, falha de caráter ou desorganização emocional deslegitima-se e marginaliza-se estes cidadãos.

Uma família não é fundada ao se adotar ou gerar filhos, mas é inegável, que a paternidade/maternidade é um ponto considerado controverso quando se fala de pessoas ou casais homoafetivos. As falas contrárias argumentam que a criança crescerá sem referência, apresentará confusões na sexualidade, falhas de conduta, doença mental e poderá inclusive, sofrer abuso sexual.

Nenhum destes argumentos se sustenta ou é corroborado pelas vastas pesquisas já realizadas. Seu intuito é o de denegrir e adoecer a capacidade parental destas famílias que ameaçam as visões estáticas e dominantes da sociedade. Quando é veiculado que a adequada criação de uma criança exige um homem e uma mulher pensa-se de forma simplista, ingênua e romantizada sobre o que é um contexto familiar saudável.

Quer dizer que as famílias homoafetivas estão livres de disfuncionalidades? Não, assim como nenhuma outra está. O que precisamos entender é que uma família adoecida ou adoecedora independe de sua formação e configuração. A disfunção se deve a questões subjetivas e relacionais do indivíduo ou casal.

O maior problema vivido pelas famílias homoafetivas não diz respeito à qualidade de seus vínculos emocionais ou a sua capacidade parental, mas sim ao preconceito e discriminação que precisam enfrentar.

Quem sabe em um futuro ainda próximo a palavra família seja suficiente para designar e abarcar todas suas formações, sem a necessidade de complementos ou predicativos para defini-las.

Imagem: “Six parrots in different colors on the branch”, (papel de parede).

* Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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