Cuidado com quem se faz de vítima!

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

gato de botas

Em nossas relações cotidianas é muito importante reconhecer aqueles que se valem da máscara de vítima para conseguir o que desejam. Sutilmente podemos ser manipulados, “vampirizados” e aprisionados em redes de queixa e culpa. Por detrás da “vítima” se esconde um verdadeiro tirano de voz mansa e chicote em punho.

Especialistas em se vitimar são exímios na arte de despertar culpa e compaixão nos relacionamentos e usam a imagem de fraqueza como principal ponto forte. Esta é sua fonte de poder e dominação. Uma opressão velada é mais difícil de ser desmascarada e denunciada. Quem convive com um(a) “coitadinho(a)” com certeza já caiu em seus jogos e comprou essa falsa imagem. Fica a dúvida: será que não estou fazendo mau juízo desta pessoa?

Como saber quando alguém usa esta máscara?

 Alguns indícios nos ajudam a identificar quem se faz de vítima:

  • Isenta-se das responsabilidades pelos próprios erros;
  • Transfere suas falhas e faltas aos outros;
  • Dissimula fragilidade para obter vantagens e manipula fazendo-se de injustiçado(a) e “pobre coitado(a)”;
  • Agride de forma camuflada;
  • Ofende-se quando não consegue o que deseja, afinal, é uma obrigação satisfazê-la.

A imagem clássica do dominador é uma pessoa impositiva, altiva e de postura prepotente. Ele mostra-se melhor que os demais e usa a desqualificação para gerar posições de inferioridade nas relações. É como se o escutássemos dizer: “Sou melhor do que você”, “Estou por cima e você, insignificante, aí embaixo”.

Já o funcionamento vitimado consegue o mesmo efeito, mas a partir da operação inversa. A vítima assume o lugar da impotência para impor ao outro o papel de injusto, mal agradecido ou “sacana”. O impotente se coloca como um incapaz cuja única opção é sofrer passivamente as consequências dos acontecimentos: “Olha o que você está fazendo comigo”, “Estou pagando o preço por fazer o melhor para você”, “É sempre assim, estou acostumada com maus tratos”.

Como surge uma postura de vítima?

 Qualquer pessoa pode assumir esta máscara: pai, mãe, filhos, colega de trabalho, chefe, o professor… Basta que a vitimização se torne um padrão de funcionamento, ou seja, uma maneira recorrente de se relacionar, defender, sobreviver e estar no mundo. A construção deste padrão começa com a constatação inconsciente dos ganhos que se obteve com a fragilização e queixa. A partir daí, ela passa a ser utilizada de forma generalizada como a melhor estratégia para lidar com as situações da vida. Este processo inicia-se geralmente na infância e está diretamente ligado à história pessoal e familiar de cada um.

Existe alguma vítima nesta história?

 Em ambientes de trabalho e vida social a vítima escolherá criteriosamente sua presa. Geralmente alguém prestativo, que gosta de se sentir útil, “salvar” e ajudar os mais fracos. Ela convenientemente irá se “encostar” para obter o máximo de benefícios que conseguir. Quem está sendo usado, se olhar para além da vaidade de ser o salvador, perceberá uma sensação de peso e sobrecarga. Como diz o ditado, “defunto quando encontra quem carrega ainda balança”. Por mais que se faça pela vítima sua queixa nunca cessará.

Estas pessoas são extremamente tóxicas, pois expressam a raiva de forma dissimulada – comportamento passivo agressivo. Como precisam sustentar a imagem de fraqueza e fragilidade o ataque e a ofensa vêm disfarçados de fala inocente, conselho ou boas intenções. Quem foi atacado geralmente fica confuso e não consegue nomear claramente o que ocorreu. Não sabe se agradece ou enfurece. Mas é inegável que uma sensação de desconforto paira no ar.

Mas pode ter certeza, nesta história não existem vítimas reais. Quem é manipulado, “vampirizado” ou aprisionado geralmente o permite por vaidade e obtém ganhos inconscientes assim como quem dissimula a vitimização.

O que fazer então?

Nem sempre quem assume postura de vítima consegue ter crítica e percepção em relação ao seu comportamento, mas, caso procure ajuda, precisará aprender a se responsabilizar por sua vida, nomear e expressar de forma coerente e autêntica seus sentimentos e principalmente amadurecer. Receber e valorizar a ajuda, bem como, conseguir se ajudar é um grande desafio para quem encontra prazer na queixa e se coloca como um “saco sem fundo” nas relações.

Lidar com estas pessoas no dia a dia exige olhar para além da máscara aparente evitando cair em seus jogos de culpa e redes de manipulação. É preciso cuidado para não “comprar gato por lebre” e depois se sentir lesado. Para aqueles que constantemente são alvo de quem se faz de vítima também é válido procurar ajuda, talvez seu padrão de funcionamento seja o de salvador, e será necessário aprender a impor limites e parar de encontrar ganhos na postura de “bonzinho”. Mas esta é outra máscara, que será abordada em outro texto.

Imagem: “Gato de botas”, filme “Shrek”.

*Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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