Muito ajuda quem não atrapalha

Patrícia Saar Paz*

bebe

Muito ajuda quem não atrapalha diz o ditado popular. O que não nos dizem com frequência é que, naquele momento de dedicação para ser útil ao próximo ou aliviar seu desconforto podemos estar, na verdade, lhe fazendo mais mal do que bem. Tampouco nos ensinam como não atrapalhar – e como prestar uma ajuda que seja verdadeiramente significativa.

As situações em que as “falsas ajudas” acontecem são inúmeras e bastante corriqueiras:

Comigo foi pior!

Provavelmente todos nós já vivemos algo parecido. Alguém pergunta qual é o problema e, após ouvir o relato (ou durante, pois nem sempre o interlocutor é capaz de aguardar o fim), nos são apresentadas inúmeras situações vividas e “eficientemente” resolvidas por aquela pessoa. Não é raro que esta conversa venha com o bônus de “comigo foi pior”, no qual uma história supostamente mais grave é descrita.

Podemos supor que a intenção seja ajudar através do exemplo, mas, honestamente, não vejo que funcione desta maneira. O que se consegue com esse tipo de conversa é demonstrar para o outro que ele não é verdadeiramente ouvido, ou pior, que é desconsiderado, pois o que realmente importa é falar de si mesmo.

Se eu fosse você faria assim…

Parece ajuda, dá sensação de que estamos sendo muito prestativos e, provavelmente, o outro ficará grato por ter seu problema “resolvido”. Mas qual a verdadeira utilidade em tirar de alguém a oportunidade de aprender e superar uma dificuldade sozinho? Com isso nos fazemos necessários, indispensáveis até, e construímos relações baseadas em dependência.

Não estou falando por mal, é que eu me preocupo com você.

Talvez seja a situação mais danosa. Tratam-se das críticas e julgamentos disfarçados de conselho e preocupação. “Eu só acho que você se sentiria melhor se perdesse alguns quilos. Já tem um rosto tão bonito… Além de ser importante para preservar sua saúde, sabe?”, “Por que você não alisa o cabelo? Dá menos trabalho pra cuidar e ficaria tão mais bonita”, “Você tem tanto potencial, deveria procurar um curso/trabalho com um nível mais elevado do que este seu”.

O que falta aqui é reflexão e autoconhecimento suficientes para entender que estas falas são, sim, feitas por mal. Elas não se revertem em bem-estar para o outro e revelam o incômodo pessoal diante de escolhas, estilos, formas de ser e de viver com as quais não se concorda. Neste caso, a “ajuda” é na verdade abuso e o interesse é puramente pessoal.

Como posso ajudar?

Se quisermos realmente ajudar uma pessoa que parece estar sofrendo, devemos ter em mente, em primeiro lugar, que não temos obrigação de saber o que lhe fará bem. Exatamente. Não é porque nossa ajuda foi solicitada ou há espaço para oferecê-la que temos o compromisso de ser eficientes nesta função. Por isso, em minha opinião, a melhor maneira de iniciar a tentativa de ajuda é perguntando ao outro o que ele/ela gostaria que fizéssemos. Esta pergunta demonstra disposição para ajudar, norteia nossas ações e, além disso, coloca a pessoa em posição reflexiva diante de seu problema.

Após um “o que posso fazer por você?” as possibilidades de respostas são ilimitadas. “Só quero desabafar”, “Me diz sua opinião, o que faria numa situação assim?”, “Fica comigo, está ruim passar por isso sozinh@”, “Me dá um abraço”, “Eu não sei”.

 Imagem: acervo Thinkstock

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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