Carta de alguém que desistiu

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

Carta (jump)

Hoje acordei decidido. Não por impulso ou capricho, mas, pode ter certeza, por extrema necessidade e após muita reflexão. Ponderei demais antes de escrever esta carta. Não quero soar inconsequente ou infantil, sei muito bem o que é agir de forma imatura somente para chamar atenção. Este não é meu objetivo.

Talvez alguns de vocês não tenham sequer percebido minha ausência. A presença de corpo foi capaz de enganar e o burburinho de toda a gente serviu de camuflagem para o silêncio que há algum tempo se instalou por dentro. Esta estrada não é de hoje que a percorro.

Mas, finalmente, cheguei à conclusão de que não dá mais. E podem acreditar, estou em paz. Pela decisão tomada e pela aceitação desta situação que há muito reluto em encarar.

Se esta carta foi endereçada a você é porque ela também lhe diz respeito. A decisão que aqui comunico, direta ou indiretamente, afetará sua vida. Peço apenas que não me julgue e procure entender as razões que me trouxeram até este ponto. Acredito que em algum momento você também pode ter se sentido assim. Pois bem, resolvi agir.

Comunico então, solenemente, para o mundo e para mim mesmo (neste momento preciso muito me ouvir) que desisti. Cansei! Cansaço de alma, daqueles que não basta tirar férias ou uma tarde de folga para passar. Esta carta é uma despedida.

Cansei de reclamar e nada fazer. Cansei de sobreviver. Cansei de justificar a estagnação. Cansei desta zona de conforto desconfortável. Por fim, cansei de me acovardar e esconder. Neste momento procuro recuperar as rédeas de minha vida. Estas que já não me lembro mais quando escaparam de minhas mãos.

Desisti de me anular para agradar, de dar importância à opinião alheia e passar como um trator por cima de mim mesmo. Desisti de abandonar minhas necessidades. Não quero mais viver com medo: medo da vida, do fracasso, das críticas, do ridículo, medo, medo e mais medo! Não aceito mais dizer sim querendo falar não, esboçar um sorriso amarelo ao invés de me colocar e defender o que acredito. Desisti de esperar do outro o amor que precisa vir de mim. Desisti de não me amar.

Preciso mudar mesmo sabendo que não vou agradar a todos. A zona de conforto nunca foi só minha. Meu “desconforto confortável” confortou a alguns de vocês. Sempre soube, mas não queria me escutar. Dói ter de perceber que estamos correndo pela vida em trilhos equivocados, mas dói ainda mais ignorar aquilo que já sabemos que precisamos mudar. Sufoca!

Portanto, me despeço do velho, daquilo que está mofado e cheirando a guardado. Meu intuito é abrir espaço em minha vida. Espaço vital. Vitalidade é o que preciso. Recobrar sentido. Reconectar. Reencontrar-me.

Percebi nestes momentos de reflexão que algumas coisas precisam morrer para renascermos. Quero e preciso tentar fazer diferente. Estou em débito com esta ousadia em minha vida. O momento é agora. Sem mais adiamentos, sem culpas e desculpas.

Sei que não será fácil, mas, a partir de hoje inicio o exercício de uma nova vida. Com menos peso e menos excessos. Mais amor e acolhimento. Preciso urgentemente me resgatar!

Imagem: autoria desconhecida, imagem retirada da internet.

*Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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