“A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira” – ou, “não conheço nenhuma mulher que não tenha sido vítima de violência”

Patrícia Saar Paz*

violência contra mulher

Você é capaz de afirmar com segurança quantas mulheres, entre aquelas com quem você se relaciona, já sofreram violência? Sem medo de soar exagerada, eu diria que a resposta seria todas. Inclusive eu.

Não conheço nenhuma mulher que nunca tenha sido vítima de violência.

Essa afirmação pode soar chocante se pensamos no estupro cometido por um desconhecido em uma rua deserta tarde da noite ou na surra dada pelo companheiro alcoólatra, que deixa olhos roxos, costelas quebradas e marcas por todo o corpo.

No entanto, as violências física e sexual não são as únicas cometidas contra as mulheres. Informo aos leitores e leitoras que a violência cometida contra a mulher é esta dos exemplos, explicita e inegável, mas também de outros tipos, silenciosos, camuflados e potencialmente danosos – especialmente por, grande parte das vezes, não serem vistas e reconhecidas como violências.

O termo violência abarca qualquer comportamento exercido contra a vontade da outra pessoa, provocando dano ou intimidação, a fim de obrigar que se submeta a uma situação indesejada.  Comportamentos violentos podem ser físicos ou sexuais, como foi dito acima, mas também acontecem de forma verbal e psicológica, e através de abuso digital e financeiro. Para que fique claro, a violência é um conceito amplo que se expressa nas formas de abuso, exploração e negligência.

Não consideramos como violência as ações cotidianas às quais as mulheres são submetidas. As cantadas são elogios, os beijos forçados são roubados, os salários desiguais são competência e formação, as falas de “com essa roupa você não sai”, “mulher minha não trabalha”, “não aceito que você seja amiga desse cara” são preocupações de homem ciumento, o “mulher no volante, perigo constante” é simplesmente uma piada. Naturalizamos e dizemos que a sociedade é assim. Tem sido assim, é verdade, mas não deveria. E uma mudança só se faz possível na medida em que a violência é vista e entendida como tal.

Neste texto o Multiverso quer propor uma reflexão sobre a abrangência da violência contra a mulher, e para isso convido aos leitores e leitoras a buscarem em suas memórias as violências sofridas, assistidas e também praticadas. Pode ser constrangedor se perceber como vítima ou como autor de violências, mas é necessário compreender se a sociedade é assim, isso afeta a todos nós. Precisamos nos ver como parte desse sistema adoecido e disfuncional para, então, buscar alternativas mais saudáveis de convivência.

Na próxima semana, traremos um texto com explicações e exemplos de cada uma das formas de violência e abuso que foram citadas aqui. Convidamos vocês a participarem da construção deste texto enviando relatos, através dos comentários aqui do blog ou do nosso e-mail.

Imagem: autoria desconhecida, imagem retirada da internet.

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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