“A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira” – ou, “a culpa da violência NUNCA é da vítima”

Patrícia Saar Paz*

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Em nosso último texto definimos violência como qualquer comportamento exercido contra a vontade da outra pessoa, provocando dano ou intimidação, a fim de obrigar que se submeta a uma situação indesejada.

É necessário agora categorizar estas formas de violência e exemplificá-las para que as possamos identificar, combater e denunciar da maneira devida. Importante informar que existe um canal de atendimento específico com a função de orientar sobre os direitos e serviços públicos voltados para a população feminina em todo o país, o Ligue 180.

Violência Física

Não são violências físicas apenas as ações como bater, chutar, morder, puxar cabelos ou estrangular. Quando a mulher é impedida de se mover, segurada com força, empurrada ou puxada, tem seu rosto segurado agressivamente e mesmo quando é ameaçada de agressão, temos aí situações de violência física.

Casos de abuso físico podem ser muito complexos e não devem ser reduzido às já comuns falas de “continua com ele porque mulher gosta de apanhar”, “é mulher de malandro”. A culpa da agressão nunca é da vítima.

Violência sexual

A violência sexual não se resume ao estupro. Todo e qualquer ato ou contato sexual indesejado que seja imposto por uma pessoa à outra, ainda que na forma de tentativa ou comentário, é considerado violência sexual.

violencia contra mulher 4Por exemplo: segurar o rosto de uma mulher e beijá-la à força; tocá-la de qualquer forma íntima que não seja consentida; fazer comentários sobre seu corpo ou insinuar ações que gostaria de fazer com ela (não importa que, aparentemente, sejam “elogios”, eles podem constranger e causar medo); forçá-la a tocar seu corpo; tirar proveito de uma mulher que está incapaz de dar consentimento (bêbada, dormindo ou sob efeito de drogas), para qualquer tipo de ação sexual (beijo, carícia, apalpação, penetração seja com o pênis, outras partes do corpo ou objeto); impedir o uso de preservativos no ato sexual.

Dizer coisas como “sei que ela está querendo”, “bêbada desse jeito, o que ela espera que vá acontecer?”, “andando com estas roupas curtas, claro que os homens vão falar/passar a mão” é tentar fazer parecer que a violência é provocada pela mulher e não cometida pelo homem.

Violência verbal e Violência psicológica

Xingamentos, ofensas e desqualificações são comportamentos nem sempre encarados com seriedade, mas que também são formas de violência. Comumente a violência verbal precede a violência física, por isso é necessário manter atenção. Além disso, ela é veículo para outra forma de violência extremamente danosa, a psicológica.

Esta, por sua vez, talvez seja uma das formas mais difíceis de identificar dada sua complexidade e aspecto subjetivo. (Trataremos deste assunto de forma específica e um texto que será publicado em breve).

Consideramos violência psicológica toda ação que cause dano emocional, afete negativamente a autoestima, prejudique o desenvolvimento normal ou tenha por objetivo exercer qualquer forma de controle, levando a prejuízos psicológicos.

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Esta forma de violência pode ser bastante sutil e leva tempo até que a vítima se perceba como tal. É comum que amigos próximos e familiares façam alertas sobre os excessos cometidos pelo parceiro, o que muitas vezes resulta em tentativas de desqualificação desta rede de apoio por parte do agressor e de afastamento de sua companheira, para que não sofra influencia indesejada.

Afastar a mulher de pessoas queridas e falar mal destas pessoas; dizer coisas como “mulher decente não usa uma roupa como essa, vai lá trocar”; ridicularizar seu trabalho, suas crenças, conquistas, preferências e amizades; ser excessiva e injustificadamente ciumento; fazer com que você se sinta culpada pelos abusos que ele comete e por todas as coisas ruins que acontecem na relação, todos estes são exemplos de violência psicológica.

Abuso digital


O abuso digital se dá através da perpetuação das violências verbais e psicológicas em ambientes virtuais.

violencia contra mulher 5São exemplos de abuso virtual a determinação de quem podem ser @s amig@s da parceira nas redes sociais; o roubo de senhas ou a exigência de seu fornecimento; o uso de redes sociais ou aplicativos para controlar os locais para onde a parceira vai; envio de mensagens ofensivas e também de vídeos e fotografias com conteúdo sexual não solicitado (“mandar nudes” para alguém que não permitiu expressamente seu recebimento é uma forma de abuso digital); mexer no telefone ou computador da parceira para ler mensagens, e-mails, checar fotos e registros telefônicos; ameaçar e/ou enviar vídeos e fotografias de conteúdo sexual da parceira.

Abuso financeiro

Qualquer maneira de usar dinheiro para exercer controle sob a parceira é considerada abuso financeiro. A proibição de que a mulher trabalhe, o controle da forma como ela gasta o próprio dinheiro, a exigência de que compre coisas para o homem, o uso de cartões de crédito ou de valores poupados conjuntamente sem sua autorização são exemplos desse tipo de abuso.

Sabemos que a violência é um assunto denso, capaz de mexer profundamente com muitas mulheres. Exatamente por isso sua discussão é tão importante ao Multiverso Terapêutico. Esperamos conseguir contribuir para um maior esclarecimento sobre o tema e iniciar discussões que ultrapassem os limites da leitura do blog. Você, leitora, já compartilhou com alguém histórias de violência vividas por você? Você, leitor, consegue se identificar em algum comportamento entre os citados aqui? Vocês conhecem sites, projetos, campanhas voltadas para o enfrentamento da violência?

A equipe do Multiverso está à disposição para dar indicações, entrem em contato pelos comentários ou através do nosso e-mail.

Imagens: autoria desconhecida, imagens retiradas da internet.

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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