Sobre engolir sapos

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

mafalda-basta

Há alguns anos, durante um atendimento clínico, escutei um ditado que acabou sendo incorporado ao meu repertório de frases e pensamentos. Adoro estas expressões que, por serem muito populares, tornam-se metáforas ricas para reflexão e acesso ao inconsciente. Compartilho agora com vocês:

De rã-rã em rã-rã a gente engole muito sapo

Este ditado ilustra de forma divertida aqueles momentos em que negamos nossa vontade para supostamente não desagradar a uma pessoa, instituição ou crença.

O sorriso amarelo na face e o sim pouco confortável abrem terreno para o início da indigestão. “Pra que fui aceitar?”. O sapo desce coaxando e arranhando a garganta para se transformar em um grande engodo na boca do estômago. “Se arrependimento matasse!”

Em seguida vem a raiva. Se estivermos realmente conectados perceberemos que não é raiva do outro, mas de nós mesmos, da nossa incapacidade ou dificuldade em sermos verdadeiros e congruentes com nossas vontades. A congruência reside em integrar pensamento, sentimento e ação.

Façamos uma avaliação. Se os sapos engolidos a contragosto são ocasionais e relacionados a situações isoladas, tudo bem! Na vida, em alguns momentos, podemos ceder e flexibilizar sem maiores prejuízos. Entretanto, se o desconforto por dizer “sim” é muito frequente e traz prejuízos ao prazer e alegria de viver, é necessário avaliar o que estamos fazendo com nossa liberdade de escolha e autonomia.

Proponho um exemplo fictício para ilustrar.

Ruth tem 36 anos e sente-se esgotada. Aprendeu que na vida não custa nada “estender a mão” e ajudar. Mas tem percebido que suas vontades e projetos estão relegados ao segundo plano. Não se sente no direito de estar cansada, reclamar ou recusar um convite para sair. Deixa de resolver suas pendências para auxiliar outras pessoas. No trabalho é considerada o “porto seguro” e sempre acolhe a todos que precisam. Gostaria de ser duas para conseguir viver a própria vida.

Não quero, não posso, não gosto, não obrigad@, não pode, não estou a fim, não vou, não permito, o repertório de combinações para esboçar uma negativa é vasto além de sempre podermos contar com a boa educação para embalar de forma delicada a resposta. Mas, isso necessariamente não torna o ato de dizer “não” mais fácil.

Já escutei diversas frases para justificar esta dificuldade: aprendi na minha criação a importância de ser educad@, não quero ser uma pessoa egoísta, não quero perder a amizade d@ fulan@, o outro é quem tem de perceber que eu não estou a fim. Mas, sinceramente, os conceitos de boa educação, egoísmo, amizade e empatia estão mal empregados, se não deturpados, nestas frases que os evocam.

O que discutimos aqui se chama limite, a capacidade de delimitar fronteiras nas relações cotidianas a fim de evitar invasões, desrespeitos e demarcar o terreno das concessões e permissões. O limite, ou a dificuldade em estabelecê-lo, é tema recorrente em conversas no consultório de psicologia e terreno por vezes delicado para abordar nas relações cotidianas e, por isso mesmo, essencial.

Acredito que todos já tenham lido ou ouvido falar sobre a importância do limite para as crianças, por exemplo. Além de ser demonstração de amor e cuidado, ele oferece continente e referência clara para o agir no mundo. Através do “não” percebe-se que nem tudo é aceitável ou está ao nosso alcance e, principalmente, que eu também não sou obrigado a aceitar e concordar com tudo. Entretanto o “não” em excesso na criação também não se mostra benéfico, já que oprime, cerceia e sinaliza autoritarismo ao invés de autoridade.

Infelizmente aqueles que sentem dificuldade em dizer não para o outro são experts em fazê-lo para si mesmo. E quantas sansões e renúncias isso exige! As necessidades e vontades pessoais ficam relegadas ao segundo plano, e é comum ter a sensação de falta de reciprocidade. “Faço tanto por todos, mas quando preciso não encontro ninguém pra me apoiar!”

Sentir-se na obrigação de dizer “sim” aprisiona, já que muitos se beneficiarão desta dificuldade e não facilitarão o processo de mudança. “Nossa! Você não era assim, depois que começou a ir ao psicólogo ficou tão egoísta!”

Que tal se perguntar: Quais “não” preciso aprender a dizer? Quais “sim” preciso me permitir?

Dizer não é dizer sim
Dar um não ao que é ruim
É mostrar o meu limite, é mostrar o meu limite.
(Kid Abelha)

Imagem: “Mafalda”, de Quino.

*Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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