O que fazer com a culpa que eu sinto?

Patrícia Saar Paz*

culpa

O tema do texto de hoje já fez parte de vários atendimentos clínicos: trata-se do sentimento de culpa. Acredito que este assunto pode ser discutido a partir de diferentes ângulos. O escolhido para a reflexão que proponho agora tem a ver com os desdobramentos da culpa.

Há algum tempo ouvi um palestrante dizer “algumas palavras andam em pares”. Achei sua colocação bastante interessante e fui procurar pares que parecessem mais corriqueiros. Não demorou muito para que culpa e punição formassem dupla. O que se espera quando uma pessoa é considerada culpada por um crime? Que seja adequadamente punida por sua ação, não é assim?

Em muitas situações, a própria pessoa parte em busca desta punição. Quem já leu “Crime e Castigo”, de Fiodór Dostoiévski, esteve diante de uma amostra dramática do que estou falando. Trazendo para um exemplo cotidiano, posso citar a experiência de algumas pessoas que vivem com o vírus HIV: sentindo-se culpadas pela contaminação, acabam por negligenciar seus tratamentos como forma de punição, ainda que não tenham total clareza desta ação.

Um dos desdobramentos da culpa pode ser o abandono de si, o sentimento de não ser merecedor de auxilio, digno de perdão e de vivenciar novas alegrias. Falta compaixão da pessoa consigo mesma e também prontidão para encarar a situação com uma postura resolutiva.

Curioso observar que, do ponto de vista prático, a dupla culpa-punição pode mostrar-se completamente inútil diante da situação vivida. Consumir-se em culpa e/ou buscar uma punição considerada merecida não resolvem o evento gerador do problema.

Sentimentos vêm à tona por algum motivo e sempre possuem uma função, mesmo que seja desagradável e incômodo vivencia-los (falamos sobre isso aqui e aqui). É desrespeitoso para consigo mesmo tentar suprimi-los, além de ser uma conduta ineficaz e disfuncional.

O que fazer com a culpa, então?

Voltando aos pares de palavras, peço que analisemos um substituto ao par anterior. Trata-se da dupla responsabilidade-implicação. A meu ver, esta é uma combinação mais saudável e empoderadora. Preciso compreender que sou responsável, em alguma medida, pelo que acontece em minha vida. Mesmo diante da percepção de que essa responsabilidade pode ser compartilhada com outras pessoas que estejam envolvidas com o ocorrido, devo assumir que cabe a mim arcar – parcial ou integralmente – com suas implicações e agir de forma a solucionar os inconvenientes causados ou pelo menos minimizar os danos. Essa postura evita recorrermos à dupla culpa-punição e possibilita assumirmos uma postura mais ativa e funcional, tirando lições da experiência vivida.

Imagem: retirada da internet, autoria desconhecida.

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

2 Comentários

Arquivado em Psicoterapia, Relacionamento

2 Respostas para “O que fazer com a culpa que eu sinto?

  1. Judith Blater

    Falar em “sentimento” de culpa e punição expõe um evidente dualismo de sujeitos que necessita de um punidor e punido; um paradoxo. Se há uma relação de causalidade do indivíduo que “sente” culpa e ” deseja” ser punido, deve-se evidenciar com mais clareza os desejos.
    O psicólogo empírico, definindo o sujeito por seus desejos, permanece vítima da ilusão substancialista. Encara o desejo como existente no ser a título de “conteúdo” de sua consciência (por razões óbvias jamais seria objeto do inconsciente), e supõe que que o sentido do desejo é inerente ao próprio desejo. Portanto, evitemos considerar tais desejos como pequenas entidades psíquicas habitando a consciência: constituem a consciência mesmo em sua estrutura original projetiva e transcendente, na medida em que consciência é, por princípio, consciência de alguma coisa.
    Outro erro, que mantém profundas conexões com o primeiro, consiste em considerar terminada a investigação psicológica uma vez alcançado o conjunto concreto dos desejos empíricos. Assim, um ser seria definido pelo feixe de tendências que a observação empírica pode estabelecer. Naturalmente, o psicólogo nem sempre se limitará a efetuar a soma dessas tendências: ele se compraz em esclarecer seus parentescos, concordâncias e harmonias, e em tentar apresentar o conjunto dos desejos como uma organização sintética, na qual cada desejo atua sobre os demais e os influencia.
    Não se trata aqui da indagação ingênua de um “porquê” que não permitisse nenhum “por quê?” – mas, ao contrário, é uma exigência fundamentada em uma compreensão pré-ontológica da realidade humana e na recusa, vinculada a tal compreensão, de considerar o ser como sendo analisável e redutível a dados primordiais, a desejos (ou “tendências”) determinados, suportados pelo sujeito tal como as propriedades o são por um objeto.
    Todo desejo apresentado como irredutível é de uma contingência absurda e envolve na absurdidade a realidade humana tomada em seu todo.
    A pura e simples descrição empírica só pode fornecer-nos nomenclaturas e colocar-nos frente a pseudo-irredutíveis (desejo de ser punido, de criticar, de ensinar, de construir, etc.). Com efeito, não convém catalogar a lista de condutas, tendências e inclinações, mas é preciso decifrá-las, ou seja, saber interrogá-las. É deveras leviano supor que sentimentos empiricamente observados levem, invariavelmente, a tendência de comportamentos conscientes e preocupante ler que estas conclusões advêm da prática de atendimentos clínicos.

    Curtir

    • Judith, gostaríamos de agradecer sua contribuição ao Multiverso Terapêutico. Desde o início do projeto nosso objetivo sempre foi o de possibilitar a reflexão a partir das diversas vozes e leituras que compõem a visão de “realidade” e o conhecimento. Sabemos que a Psicologia Clínica é plural em suas teorias e abordagens e apesar das diferenças apresenta pontos de intercessão, o sofrimento psíquico e a promoção de saúde emocional. Independente do arcabouço que embasa nossa visão e prática respeitamos e enaltecemos a beleza e legitimidade do campo psi como um todo. Convivência e respeito são bases importantes de um relacionamento saudável. Gratos. Equipe Multiverso Terapêutico.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s