Quando eu… Uma história sobre adiamentos

Vinicius Cavalcanti de Abreu* e Amy Magalhães Sholl**

sad butterfly girl - Belissimorte

Lilica era uma lagarta que nasceu com muita fome. Amava folhas de todos os tipos e as devorava com incrível voracidade. Mas a principal fome de Lilica era de felicidade.

Tudo começou quando ainda frequentava o pré-borboletal na escola de lagartas. Ouviu a professora falar, apaixonadamente, sobre o voo inicial após a transformação em borboleta. “Meninas, o primeiro voo é um momento magnífico. Estejam plenas, lindas e felizes!”

Lilica amou a palavra PLENA. Ela fazia cócegas em sua barriga e despertava um leve comichão. Naquele instante encontrou a expressão que descrevia tudo o que ela mais queria da vida: ter felicidade plena!

bugs life

“e então, tudo será melhor”

Mas Lilica se sentia longe desta plenitude. Via-se como uma lagartinha desengonçada, gordinha e sem atrativos. Não conseguia amar o que via no espelho e admirava a imagem de borboleta que criou em sua mente.

Pensou que quando fosse magra, poderia se sentir mais próxima da plenitude. Imediatamente iniciou uma dieta radical. Como já era vegetariana diminuiu drasticamente a quantidade do que comia. Emagreceu a olhos vistos, mas ainda não se sentia bonita. “Bonita serei quando me tornar borboleta”, pensava.

Vestido borboletaImaginou que para ser plenamente feliz teria de usar roupas elegantes e vistosas. Começou a estoca-las no armário. De vez em quando admirava-as. Ao ser questionada por que não as usava dizia: “Quando eu for uma borboleta em plenitude terei  motivos especiais para usá-las”.

E nesta direção seguia o pensamento de Lilica. “Quando eu me sentir plena não mais me entristecerei com a solidão. Quando eu me sentir plena poderei ser feliz de verdade. Quando eu me sentir plena não serei carente como sou. Quando eu me sentir plena…” enfim, tudo seria diferente.

Como a felicidade e plenitude estavam sempre distantes Lilica vivia um presente bem sem graça e desmotivador. Sentia que, por mais que pudesse se alegrar com alguns momentos, estes nunca eram tão reluzentes quanto a ideia da felicidade plena de borboleta. Acreditava que nada podia fazer para mudar isto e o jeito era aguentar a tão sonhada libertação do casulo. A alegria, o bem estar, a diversão, o cuidado e o senso de realização só viriam após o processo de transformação. Quando entrasse no casulo, como num passe de mágica, seria outra.

Até que um dia sentiu em seu interior o chamado da natureza e estremeceu. Era chegado seu momento de virar borboleta.

Construiu o casulo ao seu redor e com afinco trabalhou dia e noite sem cessar tecendo suas asas. Tecia e sonhava. O futuro era muito promissor. Após algum tempo de intenso trabalho começou a perceber que o casulo a expulsava, era o sinal de que chegava a hora de irromper para a nova realidade!

Foi calmamente desconstruindo o casulo e de lá saiu triunfante para seu voo. Voou como se fosse a última coisa que faria em toda sua vida. Voou com vontade, intensidade e empenho. Respirou fundo e se emocionou com a nova vida de possibilidades que se delineava. Escolheu estrategicamente uma linda flor e lá pousou cuidadosamente para o grande final.

Borboleta na florLilica ficou parada, imóvel sobre a flor, cabeça e antenas erguidas, por bastante tempo. Esperava o tão sonhado arrebatamento que sentiria. A confirmação de que agora tudo era diferente. Mas nada. A borboleta foi percebendo que a lagarta, que se sentia desengonçada e sem atrativos, continuava presente, mesmo com um esbelto corpo de borboleta e asas cuidadosamente desenhadas. Percebeu então que sempre havia estado plena, mas de expectativas, cobranças, adiamentos, cansaço e tristeza. Percebeu também que esperava o futuro ao invés de construir o presente. Durante todo aquele tempo se preparou para que a realidade fosse diferente ao invés de tentar fazer diferente.

Aquela noite foi longa. Lilica pensou muito em sua vida, até que adormeceu. No sonho reencontrou outro professor da escola, o que foi bastante confortador.

O dia amanheceu lindo, como um convite a todos para saírem de seus esconderijos. Lilica acordou sentindo-se diferente. Correu até o espelho e se observou por alguns minutos. “Nada mudou!”. O que seria então?

Voou até uma flor para pensar e lembrou-se do sonho com o professor. Nas aulas ele dizia coisas importantes de forma simples e elogiava a beleza do coração da lagartinha. Sempre falava a Lilica que a felicidade estava no real. Aquelas lembranças faziam muito sentido. Estava ali o que havia começado a mexer em seu coração.

Menina borboletaLilica ainda se sentia triste, mas percebeu que a felicidade, no real, estava mais perto do que imaginava: no momento presente. Aquela plenitude que idealizava era muito distante. Estava cansada de se sentir inferior, dos adiamentos e desculpas.bugs life 2

Sabia que teria um longo caminho de resgate pela frente, mas estava decidida que agora seria assim.

Lilica, com sua beleza interior e asas desenhadas, ainda teria momentos difíceis, mas estava disposta a tecer um caminho diferente rumo à felicidade real.

Imagem principal: “Sad butterfly girl” de Belissimorte.

Imagens do texto: Filme “bugs life” (“Vida de inseto”); autoria desconhecida, imagens retiradas da internet.

*Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contato: multiversoterapeutico@gmail.com

**Amy Magalhães Sholl, colaboradora convidada pelo Multiverso Terapêutico.

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