Mortes necessárias: conversando sobre desapego

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

Mortes necessárias

Recentemente me deparei com esta imagem em uma rede social e imediatamente fui inundado por reflexões e sentimentos. Confesso que reverberou e incomodou. A meu ver ela retrata a importância de conseguir desapegar, literalmente “abrir mão”. Acredito que deixar ir é uma forma de permitir e aceitar a morte.

Acostumamo-nos a associar o morrer a algo biológico. O momento em que deixamos de existir no plano físico e interrompemos nossa caminhada relacional neste mundo. Mas a morte, enquanto oposto complementar do nascimento, pode ser vista por diversos outros ângulos. Diariamente somos desafiados a morrer e renascer no campo dos afetos, profissional, familiar ou espiritual.

Defrontar com a morte ou deixar algo morrer pode ser bastante doloroso! O que muitas vezes não queremos perceber é que a dor já está presente no esforço de preservação que é feito. Mas para que, então, nos esforçamos tanto? Acredito que uma das possíveis respostas a esta pergunta seja o fato de nosso ego (eu) acreditar que sem “aquilo”, “aquele” ou “aquela” determinada “coisa” não conseguiremos viver e nos afogaremos em um mar de desespero e amargura. E como é real esta sensação! O apego exagerado cria dependência, que alimenta o medo da perda e impede de aceitar que algo se acabe ou vá embora de minha vida.

Toda morte envolve luto e este necessariamente passa por sentimentos fortes e intensos que precisam ser enfrentados e processados. Acreditem, algumas mortes são necessárias. Quando relutamos em aceita-las prolongamos o sofrimento, nos perdemos de nós mesmos e atrapalhamos o fluir da vida. Grande quantidade de energia física e emocional é mobilizada para manter algo pelo qual talvez já não valha mais a pena lutar.

Chega um momento em que é necessário desmontar o quarto de um filho que morreu, permitir que um relacionamento se encerre, aceitar que aquele trabalho, por mais rentável que seja, não traz prazer e sim adoecimento, enfrentar a realidade da queda de um padrão de vida, perceber que um determinado sonho ficou no caminho e não será mais possível resgatá-lo, pelo menos não da maneira inicialmente idealizada.

Estas mortes são necessárias para permitir desdobramentos na vida, apesar de serem bastante dolorosas. Saímos de cada uma delas um pouco mudados. Como diz Rubem Alves na crônica “A pipoca”: “Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira”.

Tomar consciência do momento em que é necessário desapegar não é simples e demanda reflexão, autoconhecimento e preparação. Soltar a corda, como na imagem, precisa ser feito quando damos conta disso, portanto, precisamos nos instrumentalizar, até mesmo para cuidar das feridas. Perceber a dor presente no esforço de preservação e procurar ajuda psicológica pode ser uma boa forma de se preparar. Outros recursos também são muito bem vindos e cada um tem a possibilidade de localizar em seu contexto o que é possível, viável e eficiente como auxílio e suporte.

E não nos esqueçamos: morte e nascimento caminham lado a lado.

Imagem: autoria desconhecida, imagem retirada da internet.

*Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contato: multiversoterapeutico@gmail.com

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