A máscara de “bonzinho” e o direito ao grito

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

máscara do bonzinho e da boazinha 5

Meus clientes provavelmente já me ouviram dizer em algum momento que considero os elogios bonzinho e boazinha grandes ofensas. Não só porque existem denominações muito mais criativas e interessantes para nos referirmos a uma pessoa, como principalmente porque estes adjetivos, muitas vezes, sinalizam excesso de permissividade e evitação extrema de conflito.

O aluno bonzinho é aquele que não dá trabalho em sala de aula e não questiona. A filha boazinha geralmente é aquela que segue à risca minhas expectativas e não ousa pensar com a própria cabeça e sentir com o próprio coração. Os funcionários bonzinhos aceitam sem reclamar sanções e explorações que requereriam ao menos um grito de indignação.

máscara do bonzinho e da boazinha 7Os que vestem a máscara de bonzinho e boazinha são aqueles que não dão trabalho! E não dar trabalho pode significar se anular e se alijar de si mesmo, suas vontades, necessidades e afetos. É perder a voz e automaticamente o direito ao grito.

E o que acontece quando estas pessoas, antes tão boas, começam a expressar suas opiniões e estabelecer limites? Deixo esta resposta para Rita Lee: “Foi quando meu pai me disse filha, você é a ovelha negra da família”. Saem de um extremo de admiração para a execração, sofrendo tremendas críticas. O direito ao grito tem um preço!

A máscara da bondade privilegia muitas pessoas com quem se convive. Todos, de certa forma, se beneficiam do amigo, namorada, mãe, terapeuta (essa lista é enorme!) que é “pau pra toda obra” e “nunca rói a corda”. Mas quando este padrão começa a mudar, estes são os primeiros a se indignar, pois se acostumaram a ser prontamente atendidos. No subtexto escuta-se: “Mas você não faz mais do que sua obrigação em não me desapontar e frustrar!”. Os bonzinhos geralmente têm muitos deveres e poucos direitos.

Eles vivem sobre a corda bamba da perfeição. Acreditam que não podem incomodar, gerar mal estar, dar má resposta ou importunar. Como qualquer outro padrão ou característica de personalidade, sua construção está intimamente relacionada à história de vida da pessoa.

Algumas crianças foram criadas para serem “sagradas” e, portanto, introjetaram muitos “deveres” e crenças de como deveriam se comportar. Outras precisaram ocupar o lugar do ideal de masculino ou feminino que o pai ou a mãe supostamente não conseguiam exercer de maneira adequada e tiveram de se moldar às expectativas alheias. Em outros casos, o próprio sistema familiar já vivenciava tantos problemas (um pai alcoolista, uma irmã doente, uma mãe esquizofrênica, uma grande perda ou morte, grandes dificuldades financeiras) que não existia espaço nem direito para que aquela criança desse trabalho ou se fizesse notada. Ela precisava ser uma presença ausente. máscara do bonzinho e da boazinha 6

Inclusive esta é uma reclamação constante de bonzinhos e boazinhas que começam a se incomodar com esta máscara: não se sentirem vistos, respeitados ou genuinamente acolhidos e considerados. Claro que eles também encontram ganhos com este lugar relacional. Todos nós queremos nos sentir amados e para tanto procuramos mostrar nosso melhor lado para “vender o peixe”. Este parece ser o lado brilhante de quem usa esta máscara. Ser o porto seguro. A presença inabalável. Mas o preço é muito alto e parece ser uma via de mão única.

Amor não é compatível com perfeição ou se moldar ao desejo do outro. Quem ama alguém, ama apesar de uma série de características do outro que muitas vezes incomodam, frustram e aborrecem.

Talvez seja preferível ser uma grande mistura de supostas “qualidades” e “defeitos” dinâmicos a se reduzir à falta de tempero e vitalidade da máscara de bonzinho ou boazinha. Fica a reflexão!

Imagens: autoria desconhecida, retiradas da internet.

* Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contato: multiversoterapeutico@gmail.com

1 comentário

Arquivado em Psicoterapia, Relacionamento

Uma resposta para “A máscara de “bonzinho” e o direito ao grito

  1. Anuar

    Texto excelente, concordo plenamente. Aliás, só gente com experiência de vida tem esta percepção. Parabéns!

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