O que fazer com um coração partido

Patrícia Saar Paz*

o que fazer com um coração partido

Reconheci o que me fazia mal e abri mão. Só que agora me sinto sem chão, não sei como agir. Entendo que não posso voltar atrás e me amarrar novamente àquilo que me machucava, mas ainda me pergunto o que fazer com o vazio que ficou.”

O texto “Mortes necessárias” possibilitou muitas reações, uma delas foi traduzida no trecho acima. Ele não traz perguntas, mas expressa uma dor que merece acolhimento, um tipo de dor que, provavelmente, você já experimentou também. Hoje me dirijo a todas as pessoas que já tiveram seu coração partido.

Quando se faz necessário abrir mão de algo que consideramos importante, sentimos como se um pedaço nosso morresse junto. E acredito que seja assim mesmo. Os sentimentos e sonhos que nutrimos naquela relação precisam morrer e, como resultado, é como se o coração estivesse aos pedaços.

Por vezes não percebemos que parte de nossa tristeza é originada pela morte dos sonhos, pela sensação de que a dedicação e energia investidas foram em vão. Velar esses sonhos e deixa-los definhar é um doloroso processo que faz parte do luto.

todo mundo tem um coração Cristiane AlcantaraInfelizmente, não há receita para colar corações partidos, mas alguns cuidados ajudam a acalentar a dor. Tratar-se com carinho e respeito é fundamental. Não é raro que nos zanguemos com nós mesmos ao percebermos que a tristeza por algo ou alguém que nos feriu continua lá. “Elx me traiu, me enganou, mas ainda sinto sua falta”. É justo cobrar de si o esquecimento rápido, o desaparecimento do afeto, a prontidão para seguir em frente? Somos capazes de fazer isso com sinceridade? Penso que acelerar qualquer um destes processos ou fazê-los à força são formas de autoagressão.

Permitir que a tristeza tenha espaço também não deveria ser motivo de vergonha ou relutância. É legitimo entristecer-se – e também enraivecer-se ou amedrontar-se – pela experiência vivida e também pela constatação de que o futuro não será como gostaríamos. Entram aqui os grandes sonhos e as coisas do cotidiano: não poder ligar para contar uma novidade, assistir um filme juntos ou realizar uma viagem, tudo isso dói e é inútil lutar contra essa dor. Ela precisa ser acolhida, cuidada e, só então, passará.

Todo mundo tem um coração 2 Cristiane AlcantaraÉ por isso que precisamos aprender a cuidar de nós mesmos. Se dar colo é algo que nem todos sabem fazer e é fundamental que sejamos capazes de identificar essa necessidade e atende-la da melhor maneira: solicitar a presença de uma pessoa querida, conversar, receber carinho; ficar um tempo só, recolher-se e criar para si um espaço de acolhimento; buscar ambientes diferentes, encontrar fontes de alegria, espairecer; buscar ajuda psicológica quando a situação é difícil demais para ser administrada sem este apoio. Conhecer-se é condição fundamental para cuidar de si de maneira respeitosa.

Por fim, um clichê que não poderia ser mais verdadeiro: precisamos permitir que o tempo faça sua parte. O que não devemos é considera-lo como uma entidade mágica, ele não faz nada sozinho. Se não houver um comprometimento sincero com nossa melhora, as feridas não fecham adequadamente, a alegria não retorna com honestidade e novos sonhos parecem impossíveis. O tempo age junto conosco, não podemos colocar tudo em sua conta.

Imagens: 1- imagens retiradas da Internet, autoria desconhecida; 2 e 3 – “Todo mundo tem um coração”, pintura digital de Cristiane Alcantara.

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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