Mea Culpa

Patrícia Saar Paz*

A square peg forced into a round hole. 3D render with HDRI lighting and raytraced textures.

Você sabe lidar com erros, sejam seus ou de outra pessoa? O medo de cometer um engano te impede de agir? Já se viu tendo que pedir desculpas por algo que não acreditava ser justo ou teve a sensação de que um pedido de desculpas destinado a você era, na verdade, a repetição da ofensa sofrida?

Acredito que estas sejam dificuldades compartilhadas por todos nós, dada nossa relação pouco saudável com o erro. Afirmo que é pouco saudável porque tendemos a desconsiderar o erro como parte importante dos processos de crescimento e aprendizado. Queremos avanços, melhorias e desenvolvimento, e queremos tudo isso com perfeição. Queremos, mas seguramente não teremos esse desejo alcançado.

Desde o principio de nosso processo de socialização o valor conferido ao erro parece ser negativo: errar é indesejável, feio, digno de vergonha. Ao lidarmos com crianças deveríamos incentiva-las a descobrirem caminhos melhores ou mais eficientes a partir dos erros cometidos, explorando novas possibilidades e aprendendo com a experiência. No entanto, esse empreendimento é dificultado na medida em que nós, adultos, muitas vezes sofremos para fazer isso em nossas vidas. Se ao erro pessoal couber intolerância e severidade, o erro alheio provavelmente será tratado de forma semelhante.

Não é incomum que o medo de errar paralise ou que o engano já cometido tire a pessoa do seu equilíbrio e a deixe perdida. A culpabilização excessiva nos engessa, impedindo de ver possibilidades de agir e buscar soluções. Vejo com frequência situações nas quais as pessoas dedicam mais tempo julgando-se mal por terem errado (muitas vezes, através de vitimizações eu faço tudo errado mesmo, sou uma pessoa horrível!) ou procurando responsáveis externos para o erro (parece que hoje todo mundo resolveu sair de carro, acabei tendo que parar em fila dupla, não tinha outro jeito!) do que de fato se responsabilizando e buscando soluções eficientes para a situação.

Aprender com o erro, responsabilizar-se por ele e agir para minimizá-lo quando possível, são partes importantes do processo de amadurecimento. Outra etapa deste processo é aprender a pedir desculpas.

Eis uma dificuldade que muitas pessoas enfrentam pela incapacidade de assumirem que erraram. Não falei nenhuma mentira. E nem disse por mal. Você que é sensível demais, não deveria se ofender por tão pouco! Talvez não devesse, mas já que se ofendeu, não seria o caso de desculpar-se? Ou não há problema magoar alguém se for sem querer? Precisamos adquirir a noção de que a intensão pode até ser boa, mas quando o resultado é diferente do planejado, é necessário dar um passo atrás e repensar.

Campanhas publicitárias corriqueiramente participam destes cenários: “Nossa marca não foi racista”, mesmo que milhares de pessoas negras expressem sua indignação com o produto ou anúncio. “Não somos machistas, a responsável pelo marketing é uma mulher!” ainda que milhares de vozes femininas exponham a inadequação da peça apresentada. Quando o destinatário de sua ação ou ideia apresenta-se descontente ou ofendido é mais útil e maduro refletir com humildade e desculpar-se apropriadamente do que tentar escapar da responsabilidade dizendo que o mundo está chato e que isso é mimimi.

O exemplo das campanhas publicitárias também remete aos casos em que o pedido de desculpas mais parece uma reafirmação do erro. Nem toda tentativa de retratação cumpre adequadamente sua intenção e isso acontece em situações pessoais da mesma maneira. A pessoa aparentemente está se desculpando, mas nas entrelinhas você percebe que ela apenas reforça sua posição anterior e desconsidera os apontamentos feitos. Isso não é uma retratação.

Chegando ao final do texto, quero fazer um convite: você é capaz responder, com honestidade e consciência, às perguntas do primeiro paragrafo? Suas respostas e reflexões sobre o assunto lhe parecem satisfatórias ou há necessidade de avançar? Você se percebe capaz de empreender esses avanços ou são necessários outros recursos?

Imagem: autoria desconhecida, imagem retirada da internet.

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contato: multiversoterapeutico@gmail.com

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