Defesas: quando a armadura se transforma em armadilha

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

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Como conseguimos sobreviver às dificuldades, crises e imprevistos da vida? O princípio do viver é a incerteza e estamos todos vulneráveis às voltas e reviravoltas que o mundo dá. Por mais que nos esforcemos para construir regularidades, ordem e “certezas”, estas são apenas ilusórias e cumprem a função de não nos sentirmos desamparados frente ao caos de possibilidades em que estamos imersos.

Diante deste caos ilusoriamente ordenado que é o viver, todos nós, seres humanos, construímos mecanismos de defesa para nos protegermos da intensidade de sentimentos e situações vivenciadas. Estas defesas funcionam como armaduras que blindam nosso ego (eu) em momentos muito mobilizadores e estressores. A armadura permite que o cavaleiro não se sinta vulnerável ao ataque do inimigo e sucumba durante a batalha. Como o ego acredita que não conseguirá sobreviver às crises, ele se arma em busca de autopreservação.

Defesas3As defesas do eu necessariamente não são negativas. Elas cumprem uma função importante. O problema é quando a armadura se transforma em armadilha e o cavaleiro se torna refém de sua própria blindagem. Ao mesmo tempo que protege, a armadura pesa, limita o movimento e impede as trocas relacionais, a espontaneidade e a leveza no viver.

“Vitor, um rapaz inteligente e perspicaz, tem muita dificuldade em lidar com sentimentos e afetos. Aprendeu que agir com praticidade e objetividade é uma excelente forma de não se perder na confusão das emoções. Entretanto, acaba por afastar as pessoas de sua convivência, pois, acostumou-se a usar palavras muito duras e diretas para se comunicar aparentando ser frio e distante.”

Quando uma determinada armadura funcionou bem em um contexto específico automaticamente torna-se tentadora como recurso para lidar com novas situações. O que era exceção começa a se transformar em protocolo a ser adotado. E quando o protocolo não funciona ou apresenta falhas? Aumenta-se sua intensidade, ou seja, incrementa-se ainda mais a blindagem tornando a armadura mais rígida, sólida e impenetrável. O que antes era uma defesa torna-se um ataque a si mesmo.

“Maria é uma excelente profissional, mas, cobra demais de si mesma e sua equipe. Como não admite errar acaba por exigir exageradamente de todos a seu redor. Quando sente que está perdendo o controle fica muito ansiosa e imediatamente sai em busca de culpados elevando a tensão do ambiente de trabalho e em casa. Maria está cada vez mais exaurida!”

O que fazer então?

Conscientizar-se dos prejuízos

É preciso tomar consciência dos prejuízos que a armadura tem imposto, do peso que é carregá-la e da exaustão em sustentar tantas defesas. Só é possível caminhar em direção à mudança quando, apesar dos ganhos, não suportamos mais as perdas e privações de uma estrutura enrijecida e estagnada.

Desconstruir a armadura

Defesas2Ainda que passo a passo, é necessário desconstruir a armadura. Da mesma maneira que se investiu algum tempo para construí-la, sua desconstrução não é automática e envolve recaídas como forma de aprendizado. Infelizmente, quanto mais sofisticada e bem estruturada uma defesa, mais difícil será esta desconstrução. Note que, sempre que desconstruímos, paralelamente, ocorre um processo de nova construção mais adaptável, saudável e confortável. Não se trata simplesmente de colocar uma estrutura abaixo e ficar com a angústia infértil do vazio.

Procurar ajuda

Caso a desconstrução esteja difícil, você não saiba como começar ou sinta que não consegue fazê-la, “apesar do forte desejo”, peça ajuda! Uma boa parceria com um profissional capacitado é um grande auxílio para reconhecer as limitações da defesa e iniciar uma abertura emocional para si mesmo, o outro e o mundo.

Imagens: autoria desconhecida, imagens retiradas da internet.

*Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contato: multiversoterapeutico@gmail.com

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