Pequenas conversas – aprendendo a conversar com as crianças

Patrícia Saar Paz*

Pequenas Conversas

A comunicação é um tema muito importante em psicoterapia sistêmica, pois está intrinsecamente associada à possibilidade de relações funcionais e satisfatórias. A maneira como nos comunicamos pode aproximar ou afastar, transmitir com clareza nossas emoções e opiniões ou gerar confusão.

Quando conversamos com crianças, estamos mostrando a elas modelos possíveis de comunicação. A postura de seus cuidadores* é muito importante para seu desenvolvimento: a consciência de si, a facilidade para expressar sentimentos e pensamentos, maneira de lidar com erros, a fala e até mesmo habilidades de leitura são influenciadas por essa interação.

Hoje proporei algumas dicas simples para uma comunicação saudável e orientada ao bom desenvolvimento das crianças.

Seja um bom ouvinte

Pequenas Conversas mãe e bebêPreste atenção às comunicações feitas pela criança desde seu nascimento! Sorrisos, balbucios, expressões de surpresa são maneiras de se comunicar e merecem ser observadas e respondidas. Um bom ouvinte deve interagir, demonstrar interesse e estar realmente presente, por mais banal que possa parecer a interação. Imagine contar a alguém algo maravilhoso que lhe aconteceu e ouvir apenas “ah, tá”. Frustrante, não? As crianças também se sentem assim, portanto, valorize suas comunicações. Na maioria das vezes o conteúdo de suas conversas é fantasioso e distante da realidade do adulto, por isso mesmo precisam ser positivados, estimulados e recebidos com entusiasmo. Nada melhor do que se sentir importante!

Converse no mesmo nível – essa dica serve para as posturas corporais e intelectuais.

Pequenas Conversas pai e filhaPense no desconforto de conversar com alguém olhando para cima o tempo todo. Não é apenas incômodo, pode ser muito ameaçador! Assegure-se de, sempre que possível, conversar com as crianças no mesmo nível: abaixe-se, sente-se ao seu lado ou pegue-a no colo**.

Tenha em mente que a criança está descobrindo o mundo. Ela ainda não sabe todas as coisas do cotidiano (noções de tempo, distância e quantidade são mais difíceis para elas), portanto devemos adequar nossa fala e não cobrar compreensão para além de suas condições. Mas ela já fez interessantes descobertas e é maravilhoso observar a velocidade como aprendem! Então, não descarte o conhecimento que elas possuem, valorize-o.

Faça as perguntas certas para estimular sua fala

Você gosta de sorvete? Sim. Qual seu sabor favorito? Chocolate.

Acabou a conversa.

Perguntas fechadas como as anteriores e as já corriqueiras “e a escola?” ou “gostou do filme?” são maçantes, nada criativas e não estimulam a fala da criança. É comum que sejam respondidas com “legal”, “interessante” e “chato” (quem convive com crianças sabe o quanto essas três palavras são repetidas!).

Seja mais criativo: “Jorge, me conta a parte mais divertida do seu dia”, “de qual personagem do filme você gostaria de ser amiga, Mariana? Por quê?” “Léo, qual coleguinha da escola iria gostar desse livro?” são perguntas que podem estimular a memória e a reflexão, além de deixarem o caminho livre para que a criança se expresse sem a cobrança de uma resposta certa ou errada.

Aproveite atividades rotineiras para conversar

Os cuidadores devem conversar com as crianças em momentos cotidianos, como a hora do banho, o Waleska Rehbeincaminho para escola, os preparativos para as refeições e a hora de dormir. Estas ações corriqueiras devem ser aproveitadas e podem, assim, ser transformadas em momentos muito mais agradáveis.

Peça – e respeite – a opinião da criança

É possível que a criança tome algumas decisões sobre seu cotidiano e é bastante interessante consulta-la sobre suas preferências e opiniões acerca de assuntos que a envolvem. Deixar que ela escolha suas roupas para um passeio pode ser assustador para muitos cuidadores, mas o que poderia haver de tão ruim em sair com roupas que não combinam? Pedir que ela colabore com sua opinião não implica em acatá-la sempre, no entanto é necessário ter cuidado com a condução das negociações, demonstrando respeito pela perspectiva dos pequenos e justificando quando ela não prevalecer.

Pequenas Conversas Família lendoHá diversas outras ações que podem influenciar positivamente o desenvolvimento das crianças e iremos a falar a respeito em textos futuros. Para finalizar nossa reflexão de hoje, quero fazer dois apontamentos que considero de extrema importância:

* a escolha da palavra cuidador neste texto teve como objetivo contemplar todos aqueles que se responsabilizam pela criança e não colocar peso excessivo sobre as mães. O desenvolvimento da criança deve ser preocupação de seus cuidadores, independente de se tratarem de avós, tios, padrinhos, pais biológicos ou adotivos. Aos homens, um alerta: cuidar dos filhos não é ajudar sua esposa, é sua obrigação!

** adultos que não são cuidadores da criança não devem pegá-las no colo ou mesmo tocá-las sem autorização. A vontade da criança deve ser observada e respeitada, mesmo antes de conseguirem verbalizar. O limite do corpo da criança é importante e não devemos impor a ela contatos que não desejam – essa é uma forma de prevenir situações de abuso.

Imagens: 1, 2, 3 e 5 -Imagens retirada da Internet, autoria desconhecida; 4 – Fotografia de Waleska Rehbein.

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

Deixe um comentário

Arquivado em Família, Relacionamento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s