Pequenas Conversas 2 – aprendendo a conversar com as crianças

Patrícia Saar Paz*

Pequenas conversas

Cuidar de crianças é uma tarefa de grande responsabilidade e que causa uma série de medos e preocupações em seus cuidadores. Quando profissionais sugerem formas de agir podem fazer parecer que tudo é muito fácil e tranquilo, mas sabemos que o dia-a-dia não é assim. Ter os pequenos por perto é maravilhoso, mas a rotina gera momentos de cansaço, desgaste e irritação – que são normais e devem ser respeitados.

Neste texto daremos continuidade à proposição de dicas com a intenção de facilitar e melhorar a qualidade da comunicação entre cuidadores e suas crianças (leia a primeira parte clicando aqui). Algumas podem parecer mais difíceis de colocar em prática, mais trabalhosas ou conflitantes com a rotina já estabelecida na casa, mas pedimos que levem em consideração os benefícios de sua experimentação e inclusão no cotidiano da família.

Ensine à criança formas adequadas de expressar seus sentimentos

Pequenas conversas colorindo 2Sempre vivenciamos emoções, mas leva tempo até aprendermos a nomear sentimentos e expressa-los apropriadamente. É muito importante ajudar a criança a entender o que ela está sentindo e mostrar possibilidades saudáveis e adequadas de se expressar:

O passeio no parque que vai acontecer logo após a consulta com pediatra deixou Paulo elétrico, provocando um tumulto excessivo na sala de espera. “Uau, como você está empolgado, Paulo! Tudo isso é alegria por irmos ao parque mais tarde? Tive uma ideia: que tal fazer um desenho com as coisas que você acha que veremos no passeio?”. Podem sair rabiscos ou um desenho mais caprichado, não importa. O principal é ajuda-lo a perceber que empolgação, ansiedade e alegria podem ser canalizadas de forma útil na execução de um projeto.

Laura vai ter uma irmãzinha e o berço instalado no seu quarto tomou o lugar de seus brinquedos, que agora serão guardados, inacessíveis, no alto de seu armário. Ela está jogando coisas pela casa e já quebrou um carrinho. “Laura, vem comigo que nós vamos lá fora jogar bola”. Enquanto chuta bola na parede, ela tem oportunidade de descarregar sua raiva e frustração sem ferir ninguém. Após um tempo, com essa energia dissipada, ela poderá voltar, recolher a bagunça que criou e ouvir calmamente o que seus cuidadores têm a dizer.

Responda suas perguntas da melhor forma possível

Chega uma fase em que as perguntas parecem não ter mais fim! Você não precisa saber todas as respostas, mas é importante responder tudo da melhor forma possível. A criança está explorando o mundo e você é sua principal fonte de informação – então dê informações de qualidade a ela. Quando não souber, busque uma saída produtiva: “não sei, mas podemos pesquisar juntas em casa, você quer?”. Limite-se a responder o que ela perguntou e, se não entender a pergunta, tente descobrir (com calma!) de onde a dúvida veio: “pai, o que é virgem?/ Hum… pode significar muitas coisas, filha, onde você viu a palavra? / Na propaganda de azeite”.

Também é importante ter atenção à linguagem e palavras utilizadas a fim de facilitar o entendimento da criança e permitir que ela formule novas perguntas caso sinta necessidade.

Investigue melhor aquelas falas que parecerem absurdas

Você está falando sobre sua amiga e seu filho solta “queria que ela morresse”. O primeiro impulso pode ser uma bela repreensão, mas isso lhe privaria de entender melhor o que está se passando: “O que seria diferente na sua vida se a Cláudia morresse, João?/ Você não iria parar de brincar comigo pra tomar café com ela”.

Por trás de falas que parecem não fazer sentido há uma construção feita pela criança dentro de suas condições de compreensão e de linguagem. Investigue, compreenda e a oriente sobre a melhor maneira de se expressar e relacionar com o mundo à sua volta.

Diga a verdade

Pequenas conversas injeçãoA injeção pode doer, mas você precisa tomar para não ficar doente; a viagem de carro vai demorar, mas podemos ir ouvindo música, fazendo brincadeiras ou tirando uma soneca; o remédio é amargo, mas vai te ajudar a acabar com a tosse chata que dói seu peito; a água da piscina está gelada, mas depois de entrar a gente brinca um pouco e logo se acostuma.

Se você não quer que a mentira faça parte das falas do seu filho, não a introduza e justifique seu uso em suas comunicações.

É comum cuidadores utilizarem mentiras ou falsas informações para supostamente confortar ou diminuir a ansiedade da criança. Lembre-se que você é uma figura de referência e, assim que não se confirmar aquela informação, a reação emocional dos pequenos será ainda mais intensa. Uma situação como esta pode, inclusive, comprometer o vínculo de confiança construído entre vocês.

Não use chantagens emocionais

Pequenas conversas criança aborrecidaSe você continuar jogando o brinquedo novo no chão eu vou ficar muito triste”. Sua tristeza é o principal motivo pelo qual a criança deve parar de agir assim? Ou é porque seu comportamento descumpre as regras / pode fazer mal a ela ou a outras pessoas / ela já foi orientada a agir diferente? O uso desse tipo de fala traz um resultado imediato (afinal, a criança não quer te deixar triste), mas produz efeitos muito sérios e negativos no desenvolvimento e no estabelecimento de suas relações no futuro. Note que falar com criança sobre como você se sente é muito importante e ela precisa desenvolver a compreensão de que seus comportamentos afetam aqueles que a cercam. Inclusive é possível que ela determine formas diferentes de agir para não te magoar – e isso é positivo. Contudo, é bastante diferente expressar e comunicar seus sentimentos e fazer uso deles como moeda de troca para conseguir comportamentos determinados.

Imagens: 1, 2, 3, 4 e 5 -Imagens retirada da Internet, autoria desconhecida.

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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