Você pode querer

Patrícia Saar Paz*

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Nos anos de educação infantil aprendi a dividir o lanche com colegas de sala: oferecia o meu e aceitava o alheio. Mais velha, mantive o hábito de ter lanches na bolsa e oferecer a quem estivesse por perto. Aceita? Pode querer! eu ainda digo, dando espaço para a vontade alheia se manifestar quando ela aparece escondida por detrás de uma ideia estranha de boa educação.

Você pode querer é uma frase que me acostumei a “informar” para clientes. Nada tem a ver com “querer não é poder”, eternizado no poema de Fernando Pessoa. Pode ser surpreendente para você, mas há quem não se sinta autorizada/o a querer. O impedimento pode ser tão forte para alguns que, diante da possibilidade de manifestar sua vontade, aparecem confusão e medo.

Responder à pergunta o que você quer é uma dificuldade enfrentada por muitas pessoas. Pode tratar-se de algo situacional – períodos de muita mobilização emocional ou confusão de pensamentos tiram um pouco da clareza daquilo que se quer – ou ser algo constante em sua vida. Abrir mão das próprias vontades, a ponto de deixar de fazer contato com elas, pode tornar-se um padrão.

Só é possível definir com honestidade aquilo que se quer após olhar para dentro. É necessária uma boa dose de autoconhecimento para responder adequadamente à pergunta o que você quer. E apenas conjugando a investigação interna com avaliação criteriosa do entorno poderemos encontrar uma resposta que também seja consciente. Isso significa que, além de olhar para dentro, é necessário checar com seriedade as condições e recursos disponíveis ao meu redor para que minha vontade tenha chances de ser concretizada. Escolhas conscientes envolvem a avaliação da chance de concretização e, se não há chances reais, é necessário buscar outros caminhos e mobilizar novos recursos.

Assim como o conhecimento de si e do entorno, para saber o que se quer é necessário, tanto quanto possível, distinguir as vontades individuais das expectativas externas e obrigações sociais que nos são impostas. O que querem de mim pode ter um peso tão grande na vida de algumas pessoas que, pouco a pouco, esmaga seu querer e seus sonhos, deixando evidente a obrigação de ser como esperam.  Assim acontece com a menina que quer praticar judô e acaba fazendo ballet para agradar aos pais, com o jovem que sonha ser professor de dança, mas dedica seu tempo a passar no vestibular de engenharia, com a mulher que não quer ter filhos e engravida, alegrando a todas/os ao seu redor e se tornando “uma mulher completa”, como esperam que seja.

Não é raro que, para querer, seja preciso ter coragem. Tanto o quero quanto o não quero expõem parte do que se passa dentro de mim, permitem que me conheçam um pouco mais e, consequentemente, que me julguem. Isso pode ser assustador! E estamos falando apenas da declaração da vontade – entre ela e sua concretização há um caminho que pode ser bastante longo.

“Querer não é poder”, de fato. Algumas pessoas, no entrado, precisam compreender que é possível, desejável e necessário que se queira. O querer, diferente do desejar tem a ver com escolhas, com aquilo que, conscientemente e voluntariamente decidimos para nossas vidas. Abrir mão desta possibilidade é como colocar-se à deriva.

Imagem: retirada da Internet, autoria desconhecida

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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