É possível mudar o passado

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

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É isso mesmo. O título deste texto não é uma pergunta, mas uma afirmação. Podemos sim mudar o passado. E o principal: sem precisar do auxílio de um “Delorean” (carro usado no filme “De volta para o futuro”) ou recorrer à alteração do continuum espaço-tempo. Sinto muito, mas as opções acima ainda não se encontram disponíveis no mercado.

Referimo-nos ao passado como algo que se foi e está pronto, acabado e encerrado. Uma longa sucessão de fatos que, inclusive, antecede nossa existência. Não à toa estudamos a disciplina de História na escola. Chegamos inclusive a dizer que contra fatos não há argumentos. Mas será?

Ao mesmo tempo em que pode ser fonte de saudosismo, algumas vivências passadas tem o potencial de acorrentar ou assombrar como um fantasma, que espreita de maneira silenciosa e mordaz. A estas nos referimos como feridas que não conseguimos cicatrizar.

Tudo o que acontece em nossa vida passa pela subjetividade, recebe forte carga emocional e automaticamente é revestido de significados e sentidos, atribuídos por cada um de nós àquela experiência. Desta maneira tomamos posse do que nos acontece e podemos narrar o sucedido aos outros ou a nós mesmos. A emoção sempre estará presente em tudo o que dizemos, por mais simples ou corriqueiro que possa parecer.

Portanto, o passado não é simplesmente um conjunto de fatos ou uma sucessão de interações, mas um interatuar dinâmico e recíproco de comportamentos, emoções e significados se processando lado a lado.

Quando um cliente narra um acontecimento importante, se emociona, fica rubro de raiva ou embarga a voz, estou diante do passado, revestido de emoção e sentido, e que ainda se faz presente. O que já passou se faz vivo e pulsante e reverbera seus efeitos no meu momento atual. O caminhar pela vida me constitui: morro, renasço, destruo, reconstruo, desconstruo ininterruptamente.

Como explicar que duas ou mais pessoas que vivenciaram um mesmo acontecimento o descrevam e signifiquem de formas tão diferentes? Uma, por exemplo, com um olhar positivo e reforçador, outra, com uma visão negativa e traumática. Cada um atribuirá colorações emocionais distintas mesmo diante de uma experiência “em comum”.

Ao dizer que podemos mudar o passado me refiro à possibilidade de ressignificar. Atribuir significados diferentes e reciclar emoções. Quando modifico meu olhar sobre acontecimentos que passaram modifico também a forma de me referir e encarar estas histórias. O passado adquire outros formatos, diferentes tonalidades de cores, maior repertório de caminhos para narrativa e, por conseguinte, reverberará no presente de uma nova maneira.

Mudar o passado não significa alterar os fatos que se sucederam, mas renovar a maneira de olhar, entender e sentir o que se passou. Assim posso ressignificar a raiva em compaixão, a amargura em redenção e a tristeza em perdão.

Este não é um caminho fácil, afinal, de tanto sofrermos nos acostumamos com o sofrimento. Mas, sinceramente, o que você tem a perder simplesmente por tentar?

Imagem: Cena do filme “De volta para o futuro”.

*Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contato: multiversoterapeutico@gmail.com

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Arquivado em Psicoterapia, Temáticas Contemporâneas

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