Nós, equilibristas nas cordas da vida

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

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Lá está ele, o equilibrista. Sabe que não é o único. Muitos outros caminham por estas cordas e contemplam estes precipícios. Atrás, uma rede de fios entrecruzados. Paralelos, tangentes, diagonais. Uma infinidade. Deste emaranhado, ao mesmo tempo belo e estranho, fazem parte também aquelas cordas que ficaram apenas na imaginação. Às vezes até se pergunta: Por onde aquele caminho haveria me levado? Mas no fundo sabe que é inútil se questionar. Resposta não existe para aquilo que ficou apenas na possibilidade.

À frente, o caminho por horas parece claro, límpido e tranquilo. Nestes momentos reafirma sua fé nas cordas e no precipício. Vê além, e mesmo que não veja, confia. Pisa resoluto na corda, não se atrapalha em bifurcações. É como se ele, corda e precipício estivessem em sintonia. Sincronicidade. As oscilações se transformam em uma dança ritmada de seu caminhar.

Mas o caminho não é linear e outras vezes se torna confuso, fica turvo, embaralhado. Tem medo de pisar em falso. Tem medo até de pisar. Nestes momentos o ar se torna denso e é difícil não arfar. O desespero pode ser tão grande que torna-se tentador pular. Senta-se na corda ou simplesmente para de caminhar. Quer ser rebelde e desafiar. Briga com o precipício, esbraveja com os equilibristas. Chora, pede colo ou quer apenas descansar.

“Por que equilibristas?” às vezes se questiona “Se o que mais fazemos é desequilibrar?”. Não entende a razão do nome. Mas isso não muda nada. Explicações preenchem vazios da mente, mas não os do coração. Além de corda, precipício e equilibristas, esses são também companheiros constantes. Distintos e, portanto, complementares. Que desafio é ponderar mente e coração! Conselheiros precisam ser diferentes, trazer a dúvida e desequilibrar a balança, para depois reequilibrar. Sempre que um se torna dominante absoluto a queda é certa. É arriscado! A vareta não pode pender para um único lado.

Já perdeu a conta das vezes que caiu. Mas às vezes percebe que mesmo parecidas, algumas destas quedas aconteceram em lugares diferentes. Assusta-se quando se dá conta de que está caindo sempre no mesmo lugar, sem avançar. Para cada equilibrista as cordas são específicas. Afunilam, afrouxam de maneira singular.

Ajuda? Claro que podem contar. Ela está aí, em todo o lugar. Escondida ou escancarada não importa, depende apenas dos equilibristas conseguirem acessar. Nem sempre é fácil pedir ou aceitar, mas ela com certeza floreia e facilita o caminhar.

E assim quem sabe vão aprendendo pra também ensinar. Trocam, negociam e buscam se (re)conectar. Dulçor, amargor, azedo e picante podem ser muito interessantes.

O labirinto de cordas é curto e muito longo. Passa rápido, mas também se arrasta. Encontra despedidas e despede-se de encontros. O caminho se faz ao caminhar.

Todos nós na verdade somos equilibristas na arte de (re)equilibrar.

Imagem: retirada da internet, autor desconhecido.

*Vinicius Cavalcanti de Abreu – CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contato: multiversoterapeutico@gmail.com

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