Psicoterapia é para os fortes

Patrícia Saar Paz*

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Você se lembra do bicho papão tirando sua tranquilidade na infância?

Não era raro que esse e outros monstros aparecessem dentro do armário, embaixo da cama ou se escondessem atrás de uma cortina. Escolhiam um momento em que estivéssemos sozinhas/os e no escuro para personificarem nossos medos e tirarem nossa paz. Impossível dormir assim! A solução, invariavelmente, era correr para o quarto dos pais ou gritar por socorro.

Graças ao bicho papão eu passei minha infância acreditando que todo adulto era corajoso. Afinal, eram eles que acendiam a luz e mostravam que não tinha monstro nenhum ali. Qual não foi minha surpresa ao descobrir, já adulta, que bicho papão muda de nome e cresce junto com a gente, perturbando nossas noites e sossego. E, pior ainda, que muito adulto têm medo de bicho papão a ponto de viver encolhido na cama, debaixo do cobertor, sem coragem de espiar o armário.

claudia-varjotieSeja medo, dor, dificuldade, vergonha, erro ou arrependimento, todos nós, em algum momento da vida, nos deparamos com um monstro desafiador.

Há pessoas que encontram uma forma de encarar o bicho sozinhas, vencem a batalha e seguem em frente. Outras, diante da impossibilidade de lidarem com a situação sem ajuda, se encolhem e esperam que o bicho decida ir embora – só não sei como elas descobrem que ele já foi se não tiram a cabeça debaixo do cobertor. E também existem pessoas que, mesmo com medo, encontram alguém para ser escudeiro, abrem o armário e chamam o bicho para resolver o problema. Estas, meus caros, são as corajosas pessoas que decidem fazer terapia.

Um processo terapêutico nunca é fácil. Ele nos obriga a muito mais que confrontar medos: coloca-nos em contato com dores que não queremos sentir, lembranças que não gostaríamos de ter de volta; nos leva a admitir em voz alta defeitos que preferiríamos fazer de conta que não temos, mostra os erros que cometemos, nossa responsabilidade nos dissabores que vivemos; e depois disso tudo, nos convida a arregaçar as mangas e arrumar a confusão, já que a bagunça é nossa.

Fazer terapia, em muitos momentos, é como tomar um soco no estômago ou levar uma sambada na cara, como costumam dizer alguns dos meus clientes. Pode doer de verdade. Às vezes dá vontade de nunca mais voltar, colocar tudo de volta no armário ou esconder no fundo de um baú e seguir com a vida como se não soubéssemos de nada daquilo.

As razões que levam cada pessoa a seguir com esse processo tão difícil são variadas e muito pessoais. Em comum eu posso dizer com tranquilidade que há confiança. Ter confiança na/o profissional que caminha ao lado nessa jornada é fundamental. Mas não é apenas: fazer terapia é dar a si mesmo um voto de confiança, acreditar que é capaz de construir uma vida mais feliz e mais saudável com (e apesar de) todas as dificuldades que se enfrenta.

Imagens: Ilustrações de Claudia V. Varjotie.

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

 

 

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