A família que escolhi

Patrícia Saar Paz*

Constituir família: casar, ter filhos. Esse pode ser o grande sonho de muita gente. É um sonho tradicional, bonito e, porque não dizer, um tanto comum. Não causa espanto a ninguém quando é declarado e há quem diga, inclusive, que é natural e necessário para uma vida feliz e completa.  

Quando tratamos a constituição da família como um desejo óbvio, deixamos de refletir criticamente sobre tudo que está envolvido nesse projeto.  Casar e/ou ter filhos não são etapas naturais da vida, como a queda dos dentes de leite. São escolhas que podem gerar satisfação, crescimento e alegria.

Ou não.

Afirmações como um homem de respeito precisa ter uma mulher ao seu lado ou nenhuma mulher se sente completa até tornar-se mãe determinam o que é verdadeiro ou certo a partir de um ponto de vista. Esse ponto de vista pode ser compartilhado por muitas pessoas, mas isso não o transforma em uma verdade absoluta.

Com o intuito de tratar a questão da formação familiar com mais crítica, apresentarei alguns pontos de reflexão que podem nortear o caminho a seguir. Reflita com honestidade sobre cada uma delas. O ponto de partida para qualquer decisão consciente é o lado de dentro.

Você quer se casar?

 O que exatamente o casamento significa na sua vida? Cartório, igreja, festa, morar junto, algum outro formato menos tradicional?

A vida a dois pode ter muitas roupagens, depende de quem são as duas pessoas que a compõem. Qual delas faz sentido para você, na sua vida?

Vocês têm projetos em comum?

Suponha que você entre em um barco com o grande desejo de navegar pelo litoral norte do país. A pessoa que embarca com você quer ir para o litoral sul, mas você não sabe disso. Os dois só conversaram sobre o grande desejo de velejarem juntos, mas nunca traçaram uma rota para a viagem.

Os projetos de vida do casal precisam ser conciliáveis. É necessário conversar sinceramente com a pessoa com quem você planeja compartilhar sua vida para saber se, pelo menos a princípio, seus sonhos podem ser alinhados. Carreira, vida financeira e filhos são alguns dos principais temas que devem ser discutidos pelo casal. E para isso você precisa 1. saber o que quer, 2. comunicar claramente seus sonhos e medos, 3. ouvir abertamente o que a pessoa ao seu lado tem a dizer sobre os próprios desejos e apreensões.

Nada de fazer de conta que as diferenças não importam e que tudo se resolverá em nome do amor. Isso é autoengano.  E lembre-se: projetos que antes eram conciliáveis podem mudar ao longo da relação. Conversa é fundamental.

Filhos… Filhos?

Você quer ter filhos? Por quê? Para que?

Ter filhos para suprir minha carência, experimentar um amor incondicional, ter alguém que seja meu; para atender expectativas, dar um(a) neto/a aos meus pais, deixar claro que minha união é feliz; porque aconteceu, a camisinha estourou, não deu tempo, depois a gente vê como fica; para controlar o futuro, ter alguém que cuide de mim na velhice, ocupe meu lugar e siga meus passos.

Parecem bons motivos? Quais são os seus?

Mais uma questão: basta ter filhos? E a vivência da maternidade e da paternidade? Uma coisa é ter filhos, outra é tornar-se mãe e pai. Uma pessoa pode amar sua criança e não ser feliz com a maternidade ou paternidade. Você já pensou sobre isso com honestidade?

Qual família você quer ter?

Famílias não são óbvias, papai, mamãe e filhinhos.

Acredito que a decisão de compartilhar a vida com alguém já dá inicio a uma família. Por isso a ideia de que um casal sem filhos ainda não se tornou família me incomoda profundamente. O oposto também. Quem disse que é necessário haver um casal para que exista uma família? Ser pai ou mãe solo, ou seja, ser a principal pessoa responsável pela criança, pode ser um desdobramento da vida ou uma escolha legítima!

Não importa se a família se constitui por laços biológicos ou “apenas afetivos, sua família é aquela que você declara, não uma imposição externa.

Você precisa de ajuda profissional?

As questões das quais falamos são sérias, algumas definitivas.

Diante da gravidade do tema é perfeitamente normal que surjam dúvidas, medos e ansiedades. Nenhuma pessoa ou casal precisa passar por isso sem assistência.

As preocupações, por exemplo, estão relacionadas ao caráter clínico da gestação? Procure um profissional de ginecologia que transmita confiança e que possa trabalhar de forma alinhada com seus desejos e necessidades.

São de outra ordem? Pense em sua rede de apoio, converse com pessoas que julgue ter bom senso e que possam facilitar a ampliação de suas reflexões. Psicoterapeutas são profissionais que podem integrar sua rede de apoio nesse momento.

Imagens: Imagens: 1, 2, 3 e 5 -Imagens retirada da Internet, autoria desconhecida; 4 – Tirinha de Sarah Andersen

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

1 comentário

Arquivado em Família

Uma resposta para “A família que escolhi

  1. Andressa Furtado Reis

    Excelente texto, concordo com tudo! Sucesso!

    Curtido por 1 pessoa

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