Precisamos falar sobre suicídio – “13 reasons why”

Patrícia Saar Paz*

A série original da Netflix, 13 reasons why, tem dividido opiniões na internet. Há quem elogie a abordagem de assuntos tão graves e importantes, como o suicídio, bullyng e estupro, mas também são feitas críticas sólidas a respeito da produção.

Para quem não sabe do que se trata, a série conta a história de Hannah Baker, uma adolescente que, antes de cometer suicídio, grava 13 fitas contando seus motivos. Cada motivo é associado a uma pessoa de seu convívio e as fitas são enviadas para todos os envolvidos, a fim de que compreendam sua participação na morte da personagem.

Assisti à série e penso ser pertinente propor reflexões sobre ela considerando dois níveis diferentes: forma e conteúdo.

Imagine que você têm presunto e queijo – este é seu conteúdo. As formas de prepara-los vão de misto quente à lasanha, de salada à salgadinhos. Também na comunicação teremos um mesmo conteúdo com formas variadas de ser expresso: o problema não foi o que você disse, mas como você falou.

O suicídio é o conteúdo central da trama, por isso vamos nos deter a ele. Ele é apresentado principalmente nas formas de escolha e de vingança e este é um problema sério de 13 reasons why.

Do ponto de vista da saúde mental o suicídio é, predominantemente, o desfecho de uma situação de sofrimento que tem a depressão como um fator fortemente associado e para o qual não foi encontrada solução satisfatória.

Doenças, substâncias químicas e fatores situacionais de extremo impacto (como a perda de um ente querido ou a vivência de um abuso) influenciam no reconhecimento dos recursos disponíveis para lidar com problemas. Será mesmo possível tratar como escolha uma ação praticada por alguém com o julgamento prejudicado? Acredito que a série erra quando, repetidas vezes, afirma que o suicídio foi uma escolha de Hannah.

A outra forma como o suicídio é tratado é a vingança. Esta não é tão explícita na série como se faz com a escolha, mas é impossível deixar de notar o componente de tortura presente em cada episódio. Você fez tudo aquilo comigo e agora eu estou morta. Não é raro que pessoas com ideação suicida vejam a própria morte como possibilidade de se vingar de quem lhes fez mal.

Penso ser bastante temerário apresentar um plano de vingança/suicídio tão cuidadosamente arquitetado e com desfechos tão graves para cada um dos envolvidos em uma série com foco adolescente. É perigoso porque a adolescência é por si só um período de grande confusão de sentimentos e de constantes momentos de fragilidade. Arriscado, pois mesmo que muitos jovens se identifiquem com as questões levantadas pela trama e decidam buscar ajuda, muitos outros poderão encontrar no caminho trilhado por Hannah um exemplo para lidarem com os próprios sofrimentos (o chamado efeito Werther, através do qual a exposição de um suicídio serve de inspiração para que outras pessoas o cometam, como vemos ao final da própria série, com a tentativa de suicídio de um dos personagens). E nocivo especialmente por não apontar uma solução satisfatória: a última tentativa de Hannah para obter ajuda é feita com um profissional a quem faltou sensibilidade ou preparo para lidar com a situação e que acaba falhando com ela.

De nada adianta apontar as falhas e não sugerir caminhos mais funcionais. Nossa próxima publicação, que será feita quinta-feira, 20/04, trará formas construtivas de lidar com o suicídio: sinais, informações e recursos que podem ser úteis para quem está sofrendo e para aqueles que o cercam. Aguarde!

Imagem: Abertura da série 13 reasons why. 

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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