Toda mãe é uma mulher

Patrícia Saar Paz*

A figura da mãe é, provavelmente, uma das mais idealizadas por nós. Supostamente mães são criaturas carinhosas, compreensivas e pacientes. Capazes de fazer tudo por suas filhas e filhos, amor maior não há. Preocupam-se, cometem sacrifícios pessoais, a tudo perdoam ou renunciam. Padecem no paraíso.

Deve ser um peso quase insuportável.

Não tenho filhos, falarei aqui como observadora. E o que eu vejo é que, de uma forma muito cruel, a humanidade é retirada das mulheres que se tornam mães. Mãe tem que dar conta de tudo, tem que se comportar exemplarmente e tem que ser feliz o tempo inteiro – afinal, ser mãe é algo maravilhoso demais para uma mulher não ser feliz por isso. Sei que algumas mulheres se veem como mães superpoderosas e orgulham-se disso. Preocupa-me, entretanto, o peso ao encarar as inevitáveis falhas e frustrações que a maternidade trará.

A sexualidade da mulher, alvo de tantas censuras e restrições, torna-se objeto ainda mais delicado em função da maternidade. Lembro-me de, na infância, presenciar colegas de escola brigando acirradamente porque um disse que a mãe do outro não era mais virgem. Sim, é cômico! Mas aponta o nível irracional de expectativas e limitações impostas às mulheres que se tornam mães. Pensemos então, como os desafios da maternidade das mulheres trans podem ser ainda mais pesados e complexos!

Percebo, por exemplo, como coisas simples e fundamentais, como a privacidade, são retiradas de mulheres que estão grávidas. Sua barriga já foi alisada por pessoas estranhas na fila da padaria? Você gostaria disso? É um carinho com o bebê, alguns dizem. Eu digo que é um desrespeito e uma invasão. Pode haver, sim, quem goste e se sinta afagada. Mas e quanto às demais? Precisamos entender que entre o bebê a as mãos bem-intencionadas existe o corpo de uma mulher que têm direito ao seu espaço pessoal e respeito às suas fronteiras de contato.

Já li relatos corajosos e emocionados de mulheres muito fortes sentindo-se cansadas, sozinhas e/ou frustradas com a experiência da maternidade e também já li depoimentos de mulheres que simplesmente não querem ser mães. Todas essas falas são censuradas violentamente, com base naquele ideal de mãe do qual falamos. Parece razoável a você determinar como essas mulheres devem se sentir com base nas suas expectativas? Todas as pessoas vivenciam as experiências da mesma forma?

Estamos próximos do dia das mães e por isso trouxe o assunto para esta publicação. Todas as coisas maravilhosas ditas nesta data podem ser merecidas e verdadeiras. Mas não nos esqueçamos de que mães são, antes de tudo, mulheres. Seres humanos com virtudes e defeitos, desejos, sonhos e frustrações. Medos, disfuncionalidades e pontencialidades. Singulares. Exatamente como todas as outras pessoas.

Se você é mãe, não se esqueça de que também é humana (o que significa que você vai errar) e respeite-se nessa condição. Você merece todo respeito do mundo. Exatamente como todas as outras pessoas.

Imagem: Tirinha Calvin and Hobbes, de Bill Watterson

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