Sabotagem à vista!

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

Costumo dizer que algumas vezes trazemos cupins para nossas vidas. Eles chegam de mansinho, geralmente como pensamentos ou sensações inofensivas e vão fazendo seu trabalho na surdina. Pouco a pouco ganham força, multiplicam, tornam-se mais complexos e elaborados. Quando menos esperamos, SABOTAGEM! Desmontam toda uma estrutura que supostamente havíamos construído ou, pelo menos, tentávamos edificar. Ficaram tão ocas por dentro que não se sustentam mais.

Quanto melhor elaborada e justificada racionalmente, mais difícil identificar uma autêntica sabotagem. Os argumentos são tão fortes, os motivos tão intensos que o único caminho parece ser desistir de um projeto, abandonar a academia, desinvestir de um relacionamento, não ir mais à terapia, “chutar o balde” dos cuidados com a saúde ou se convencer de que é loucura desejar mais da vida.

A sabotagem pode estar presente em uma quantidade infinita de situações. Seu “hall” de possibilidades é vastíssimo. Nem sempre ela será escancarada. E quanto maior sua sutileza mais difícil trazê-la à consciência.

Pode saber, se você costuma sabotar pequenas coisas no seu dia a dia, com certeza também o tem feito em uma escala maior.

Ainda que pareça loucura maior que o medo de dar errado é o medo de que dê certo. E este muitas vezes é o terreno que estimula e alimenta a sabotagem. Nosso ego (eu) tem um compromisso maior com a conservação e regularidade do que com a mudança e evolução. O que é desconhecido o ameaça e acaba sendo visto como possível fonte de colapso. E se eu não der conta de sustentar? Na mudança abrem-se as portas para o imprevisível e para o novo. Sobre eles não tenho controle, muito menos repertório comportamental pré-definido para lidar.

Já a estagnação é mais do mesmo. Embora possa me sentir entediado ou insatisfeito, não sou desafiado ou levado a assumir novas responsabilidades e, principalmente, não pago o preço pela conquista de meus desejos. Geralmente aquilo que mais quero ou sinto falta em minha vida é o que mais me aterroriza em conquistar. Por isso costumo dizer aos meus clientes: cuidado com o que você pede, você pode conseguir!

Na maioria das vezes as raízes da sabotagem são inconscientes e estarão relacionadas à história de vida, crenças aprendidas, lealdades familiares, repetições e padrões enrijecidos. Não à toa, ela sempre estará mais presente em um aspecto da vida do que outros. Por exemplo: Vitor é muito bem sucedido profissionalmente, se lança e batalha por seus projetos, mas nos relacionamentos sempre encontra uma forma de “melar” a relação, constantemente tem a sensação de que mais dia menos dia colocará tudo a perder.

Mais importante do que não sabotar é estar atento e perceber os mecanismos da sabotagem em sua vida. Sair do piloto automático. Tudo que não trago à consciência encontra terreno livre para proliferar e se alastrar. Como a sabotagem traz algum tipo de ganho, acaba sendo vantajoso permitir sua ocorrência.

Ao trazer o mecanismo de sabotagem à consciência vem o segundo passo: O que quero/vou fazer com isso que eu percebi? Consigo lidar sozinho? Preciso pedir ajuda? Conseguimos encarar algumas dificuldades por conta própria, já outras, são tão desafiadoras que é interessante unir forças para enfrentá-las. Esta é uma ponderação que você precisará fazer.

Imagem: tirinha da autoria de Ryotiras.

*Vinicius Cavalcanti de Abreu CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contato: multiversoterapeutico@gmail.com

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