Mortes – conversando sobre permanência

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

Diz o dito popular: vão-se os anéis, ficam os dedos. Mas, ao nos defrontarmos com mortes, como é doloroso e difícil reconhecermos o que permanece. Olhares voltados para a perda e para a ausência resistem em reconhecer o que fica e se mantém. Toda mudança convive com permanência. Toda perda abarca ganho. Para tudo que se vai, existe algo que fica.

Uso a palavra mortes, no plural, porque entendo que as possibilidades de morte são várias. Não apenas a morte física. Morte abarca tudo aquilo que se perde (se é que um dia realmente possuímos) e que em algum momento, por alguma contingência, não se encontra mais disponível ou acessível como antes. Seja um emprego, casamento, alguém querido, dinheiro, um animal de estimação, um membro ou órgão do corpo, uma amizade, um sonho ou até mesmo uma ideologia de vida.

Mortes geralmente envolvem situações, pessoas, “coisas” ou ideias que foram investidas de nosso afeto. Portanto, inegavelmente, somos afetados por sua ocorrência. As reações diante delas serão múltiplas. Cada um lidará da maneira que conseguir e de acordo com a importância e intensidade do envolvimento afetivo.

Mas, durante o processo de luto, independente do tamanho da perda, precisaremos reconhecer a permanência como requisito para retornar à caminhada. Qualquer percepção que abarque apenas uma parte do vivido, é ilusória. Não podemos negar a importância do que se foi, mas, igualmente, não devemos fechar os olhos para o que fica e se mantém. Este será o combustível que permitirá a integração e, por consequência, o “continuar apesar de”.

No momento da reação depressiva tendemos a acreditar que o que restou foi falta de sentido, miséria, decepção, fracasso e impotência. Vemo-nos como castigados ou injustiçados  pela vida. Sentimo-nos humilhados ou encontramos no orgulho (“nada disso importa”, “nem ligo mesmo”, “sou maior do que isso”) meio para lidar com a dor/sofrimento (texto: dor e sofrimento). Esta fase pode ser transitória, contanto que nosso apego não a transforme em condição definitiva para o viver. Precisaremos, passo a passo, iniciar um movimento de integração dos sentimentos e emoções, trabalhar a aceitação do que aconteceu e reconectar com a esperança e o fluir da vida.

Reconhecer o que permanece implica em localizar o que ficou apesar da mudança e enxergar o que se mantém a partir dela. Podem ficar lembraças, gratidão, mais sabedoria de vida, aprendizados e bens concretos ou imateriais. A partir de experiências difíceis e dolorosas podem surgir novas relações, habilidades até então desconhecidas, uma causa com a qual se comprometer ou uma visão mais ampliada a respeito de si mesmo e do mundo.

O que permanece nunca trará de volta o que se perdeu, mas abre a possibilidade da continuidade. E decidir-se por continuar sempre será “apesar de”.

Por tanto amor, por tanta emoção.

A vida me fez assim.

Doce ou atroz, manso ou feroz.

Eu, caçador de mim.

(Caçador de mim – Milton Nascimento)

Imagem: retirada da internet, autoria desconhecida.

*Vinicius Cavalcanti de Abreu – CRP 04/22.700 é psicólogo clínico na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.  Contato: multiversoterapeutico@gmail.com

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