A impossibilidade de dar conta de tudo

Patrícia Saar Paz*

 

Alguns clientes, após sessões muito mobilizadoras, já me perguntaram você não sai daqui exausta depois de tanto sofrimento?. A verdade é que, sim, às vezes eu saio. Pode acontecer, e os leitores e leitoras que são clientes sabem disso, da sessão ser mobilizadora para mim também, e eu me emocionar junto. Seja por uma tristeza muito dolorida ou uma felicidade transbordante. Sem pedidos de desculpas no final, acontece.

No Multiverso, nosso entendimento é de que terapeuta e cliente trabalham em uma construção conjunta, na qual a pessoa do terapeuta é também uma ferramenta. Essa perspectiva não comporta a ideia de neutralidade, nossas bagagens, histórias, vivências, dificuldades e sentimentos entram na sala junto conosco. E nós as usamos da melhor forma possível para o benefício de cada cliente.

Isso pode soar estranho para quem nunca fez terapia – ou conhece outras abordagens, diferentes da perspectiva sistêmica –, por isso é fundamental explicar que essa forma de participar do processo não implica ou permite julgamentos e direcionamentos por parte dos terapeutas. Mas também não exige que façamos de conta que os conteúdos que os clientes trazem não nos afetam. Somos humanos e fazemos questão disso: é o que possibilita nosso trabalho.

Todo profissional que usa ferramentas, equipamentos, utensílios ou produtos em seu cotidiano sabe que, a qualidade do trabalho depende muito deste material. Nós sabemos que precisamos nos cuidar (física, psíquica, emocionalmente) para garantir que nossos atendimentos sejam bem feitos, atenciosos e dignos de nossos clientes. Reconhecer essa necessidade define muitas coisas em nossas vidas pessoais (não dá pra gritar no jogo de quarta à noite e atender sem voz na manhã de quinta ou abraçar uma preguiça e dizer hoje eu não vou enquanto o cliente aguarda seu horário).

Felizmente, os desafios acontecem para nós assim como acontecem para todas as pessoas e nós precisamos nos adaptar, crescer e melhorar diante deles. Esses são os momentos de refletir e buscar fazer escolhas conscientes: dá pra encarar tudo de uma vez? Preciso abrir mão de algo para não estragar parte (ou todo) do resto? Quais são as possibilidades e qual é o melhor caminho possível?

O Multiverso fez um recesso não planejado em suas publicações para que déssemos conta de mudanças muito significativas nas nossas vidas, preparássemos um curso (parabéns, Vinícius Cavalcanti!) e seguíssemos com os atendimentos clínicos com todo o carinho que merecem. Foi dolorido abrir mão desse contato com vocês, através do blog. Nos foi cobrado voltar logo (que bom!). Mas não daríamos conta de tudo ao mesmo tempo. E respeitamos isso.

Como nossa intenção é sempre provocar reflexões, queremos usar esse episódio que vivemos juntos – afinal, nós paramos de escrever e vocês pararam de ler o conteúdo que compartilhamos, não é mesmo? – para convidar a pensar sobre algumas questões. Você tem abraçado mais do que é capaz de carregar? A frase eu tenho que dar conta é comumente dita/pensada por você? É possível que coisas/pessoas/relações importantes sejam sacrificadas pela determinação de resolver tudo simultaneamente? Para que você está se comportando assim?

Pense com muito carinho e, se parecer adequado, alivie. Não é necessariamente um abandono, negligência ou desistência. Só a necessidade gritante de entender que não damos conta de tudo. Ainda bem.

Imagem: Imagem retirada da internet, autoria desconhecida.

*Patrícia Saar Paz CRP 04/34248 é psicóloga clínica na cidade de Belo Horizonte (MG). Atende crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias. Contanto: multiversoterapeutico@gmail.com

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