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Mortes – conversando sobre permanência

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

Diz o dito popular: vão-se os anéis, ficam os dedos. Mas, ao nos defrontarmos com mortes, como é doloroso e difícil reconhecermos o que permanece. Olhares voltados para a perda e para a ausência resistem em reconhecer o que fica e se mantém. Toda mudança convive com permanência. Toda perda abarca ganho. Para tudo que se vai, existe algo que fica.

Uso a palavra mortes, no plural, porque entendo que as possibilidades de morte são várias. Não apenas a morte física. Morte abarca tudo aquilo que se perde (se é que um dia realmente possuímos) e que em algum momento, por alguma contingência, não se encontra mais disponível ou acessível como antes. Seja um emprego, casamento, alguém querido, dinheiro, um animal de estimação, um membro ou órgão do corpo, uma amizade, um sonho ou até mesmo uma ideologia de vida. Continuar lendo

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Sabotagem à vista!

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

Costumo dizer que algumas vezes trazemos cupins para nossas vidas. Eles chegam de mansinho, geralmente como pensamentos ou sensações inofensivas e vão fazendo seu trabalho na surdina. Pouco a pouco ganham força, multiplicam, tornam-se mais complexos e elaborados. Quando menos esperamos, SABOTAGEM! Desmontam toda uma estrutura que supostamente havíamos construído ou, pelo menos, tentávamos edificar. Ficaram tão ocas por dentro que não se sustentam mais.

Quanto melhor elaborada e justificada racionalmente, mais difícil identificar uma autêntica sabotagem. Os argumentos são tão fortes, os motivos tão intensos que o único caminho parece ser desistir de um projeto, abandonar a academia, desinvestir de um relacionamento, não ir mais à terapia, “chutar o balde” dos cuidados com a saúde ou se convencer de que é loucura desejar mais da vida. Continuar lendo

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Sobre a mania de querer mudar o outro

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

Seja na família, trabalho ou vida social estamos imersos em relações e constantemente esbarramos com o diferente. Tudo o que difere de nossa forma de ação ou foge do que encaramos como usual tem o potencial de causar um misto de estranhamento e curiosidade, admiração e até mesmo incômodo.

Como Terapeuta de Casal sempre digo que as semelhanças, em uma relação, precisam ser suficientes para gerar identificação e afinidade, mas não intensas o bastante para impedirem o novo, fadando a interação à monotonia e ausência de evolução. Isso mesmo! Só evoluímos a partir do que não é usual, daquilo que quebra ou questiona o que está estagnado e enraizado. O diferente tem o potencial de desestabilizar “verdades” culturais, emocionais e comportamentais. Continuar lendo

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É possível mudar o passado

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

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É isso mesmo. O título deste texto não é uma pergunta, mas uma afirmação. Podemos sim mudar o passado. E o principal: sem precisar do auxílio de um “Delorean” (carro usado no filme “De volta para o futuro”) ou recorrer à alteração do continuum espaço-tempo. Sinto muito, mas as opções acima ainda não se encontram disponíveis no mercado.

Referimo-nos ao passado como algo que se foi e está pronto, acabado e encerrado. Uma longa sucessão de fatos que, inclusive, antecede nossa existência. Não à toa estudamos a disciplina de História na escola. Chegamos inclusive a dizer que contra fatos não há argumentos. Mas será?

Ao mesmo tempo em que pode ser fonte de saudosismo, algumas vivências passadas tem o potencial de acorrentar ou assombrar como um fantasma, que espreita de maneira silenciosa e mordaz. A estas nos referimos como feridas que não conseguimos cicatrizar. Continuar lendo

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Cegueira Emocional

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

cegueira-emocional

Recebi esta imagem e a tinha guardado desde então, esperando o momento propício de compartilhá-la. Ao mesmo tempo simples e contundente, ela nos convida à reflexão sobre a maneira como estabelecemos nossas relações afetivas e nos alerta sobre o quão nocivo é nos alienarmos de nossas dificuldades emocionais.

Certa vez ouvi alguém dizer que a ignorância (no sentido de não ter consciência de algo) é uma benção. Será? Fugir ou evitar aquilo que dói e incomoda pode parecer uma boa estratégia de sobrevivência, mas na grande maioria das vezes também cobra um preço amargo.

Tolamente acreditamos que conseguimos driblar o trauma, problema ou dificuldade e nos convencemos que ele não existe mais, como que por mágica. Sentimo-nos espertos e poderosos. Entretanto, é fato: tudo aquilo que está em aberto ou mal resolvido em nossas vidas pede por fechamento e de alguma maneira retorna em busca de resolução. Continuar lendo

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Ajude-me a mudar… desde que eu não precise mudar nada

Vinicius Cavalcanti de Abreu**

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Partilho da ideia de que terapeuta e cliente encontram-se em uma dança relacional* ao longo do processo terapêutico, onde, cada qual desempenha função ímpar para a harmonia, beleza e conquistas desta jornada.

O movimento de chegada de um cliente até a terapia é um passo muito importante, mas apenas o inicial para se deflagrar uma real busca e disposição para a mudança. É muito comum que a frase ouvida no subtexto das falas do cliente, “ajude-me a mudar”, tenha como complemento “… desde que eu não precise mudar nada!”. Convenhamos! Mudar é trabalhoso e arriscado. Por mais desconfortável que seja o lugar em que estou, este já é bem conhecido e tem lá o seu conforto e segurança.

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O que você quer levar?

Patrícia Saar Paz e Vinícius Cavalcanti de Abreu*

O que você quer levar

Retornamos às publicações do blog com uma novidade: o Multiverso Terapêutico agora é também um espaço físico. Neste ano de 2016 nossa “morada” virtual passou a não ser suficiente para comportar todos os sonhos e projetos, daí a decisão de concretizarmos o consultório do Multiverso. A procura por esse espaço e sua preparação para receber clientes e parceiros demandou muito de nosso tempo e dedicação. Por isso o pequeno silêncio antes de reativarmos as postagens do blog. Continuar lendo

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O passarinho que construiu sua própria gaiola

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

O passarinho que construiu sua própria gaiola

Essa é a história de dois pássaros. Acreditem: eram gêmeos. Dico e Tico nasceram sincronicamente no mesmo horário, cada qual de seu ovo. Foi um espanto e deslumbramento geral. Nunca no bosque coisa igual fora vista. Pareciam realizar em uníssono o passo a passo do rito do nascimento.

E como eram idênticos esses irmãos. Idênticos até em suas diferenças! Continuar lendo

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Carta de alguém que desistiu

Vinicius Cavalcanti de Abreu*

Carta (jump)

Hoje acordei decidido. Não por impulso ou capricho, mas, pode ter certeza, por extrema necessidade e após muita reflexão. Ponderei demais antes de escrever esta carta. Não quero soar inconsequente ou infantil, sei muito bem o que é agir de forma imatura somente para chamar atenção. Este não é meu objetivo.

Talvez alguns de vocês não tenham sequer percebido minha ausência. A presença de corpo foi capaz de enganar e o burburinho de toda a gente serviu de camuflagem para o silêncio que há algum tempo se instalou por dentro. Esta estrada não é de hoje que a percorro. Continuar lendo

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Mudar! Pode ser pra ontem?

Vinicius Cavalcanti de Abreu

La persistencia de la memoria

Quando criança, nos anos iniciais do ensino fundamental, era comum a realização de um experimento muito simples que fazia parte da matéria de ciências e, por conseguinte, do estudo da vida: plantar grãozinhos de feijão em um algodão umedecido dentro de um copinho plástico. Lembro-me que ficava de tal forma entusiasmado que me frustrava com a demora do feijão para brotar. Todos os dias, por várias vezes, ia até o copinho e espiava para ver se alguma diferença já podia ser notada. Em alguns momentos me questionava se tinha feito algo errado. Será que não iria brotar? Estava em um local com pouca luz? Encharquei demais ou de menos o algodão? Será que os grãos não estavam bons? Alguns adultos chegavam até a se aborrecer com minha impaciência. Mas quando o broto aparecia, uma sensação de realização e alegria intensa me inundavam e imediatamente aquietava-se meu coração. Continuar lendo

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